Transformação

Transformação
Entrevista com poetas

sexta-feira, 29 de março de 2019

Papo de loko Primeiro episódio Daniel Minchoni e Marco Phé

Papo de loko é uma websérie poética onde a cada semana será lançado um vídeo com diferentes convidados, poesias e temas.



sábado, 23 de março de 2019

Breddas Warriors na Radio Mixtura

Quinta-feira, 4 de abril de 2019 de 19:00 a 22:00

Breddas Warriors na Radio Mixtura
Seletores: Gustavo Lopes, Rafael Moraes e Ricardo Carvalho vai mandar só as pedradas.
www.radiomixtura.com.br
BIG UP!
https://www.facebook.com/events/304049776940581/

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Boas vindas a mais nova colaboradora do site do Verso em Versos

Salve salve família

O site Verso em Versos esta com uma nova colaboradora para ajudar alimentar nosso portal de conteúdo importantíssimos.

Patricia Sodré professora de Historia moradora de Paraisópolis...

bora dar as boas vindas a elas.

Gratidão e luz na caminhada

 

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

MUDAS | falas são sementes em germinação - Slam das Minas SP

Quando uma mulher escreve, uma revolução se inicia. Quando muitas mulheres escrevem numa antologia, a revolução está em pleno curso.

Foto: divulgação
Vinte e cinco mulheres plantaram suas poesias em Mudas | falas são sementes em germinação (Conecta Brasil, 2018), uma compilação organizada pela coletiva Slam das Minas SP, batalha de poesias itinerante de São Paulo.

Na coletânea as poetas falam das muitas maneiras de ser mulher. Se você me permitir um clichê, elas falam sobre a dor e a delícia de se ser. Versam sobre religiosidade, origens, coletividade, solidão, protagonismo, saúde mental, representatividade, masturbação, afeto, maternidade... São textos que cultuam o feminino e nos demonstram que tudo nele é sagrado, até o que for profano.

Nomes conhecidos da cena - grandes na singularidade, maiores no coletivo - compõem a publicação. Entre elas, Pam Oliveira, Aline Anaya, Jade Quebra, Mariana Felix, Carolina Peixoto, Thata Alves, Rayane Leão, Mel Duarte, Luz Ribeiro...

A capa é da Negahamburguer, artista conhecida pelo projeto Beleza Real, e a apresentação da Tatiana Nascimento, poeta, slamer e uma das articuladoras do Slam das Minas do DF - primeiro slam onde só minas falam, uma forma de acolher e fortalecer elas nesse rolê. 

O livro é um lembrete de que "a história do mundo saiu de um útero" e que o feminino não é só o futuro, mas também o presente.

Pra saber mais: Slam das Minas SP

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Filme o "Marighella" estreia no Festival de Berlim

Filme do Marighella.
Jajá nas telas

Esse é o pôster do filme "Marighella", inspirado no livro de Mário Magalhães.

Com Seu Jorge no papel do guerrilheiro e direção de Wagner Moura, "Marighella" estreia no Festival de Berlim no próximo dia 15.

A estreia nos cinemas brasileiros está prevista para abril. Enquanto isso, que tal ler o livro que o inspirou?
Leia a sinopse completa: https://www.versoemversos.com.br/2019/02/filme-o-marighella-estreia-no-festival.html

A vida de Carlos Marighella (1911-69) foi tão frenética quanto surpreendente. Militante comunista desde a juventude, deputado federal constituinte e fundador do maior grupo armado de oposição à ditadura militar - a Ação Libertadora Nacional -, esse mulato de Salvador era também um profícuo poeta, homem irreverente e brincalhão.
Nesta narrativa repleta de revelações, o jornalista Mário Magalhães investiga as várias facetas do biografado. Em ritmo de thriller, reconstitui com realismo desconcertante passagens pela prisão, resistência à tortura, operações de espionagem na Guerra Fria e assaltos da guerrilha a bancos, carros-fortes e trem-pagador. Mas também recupera a célebre prova de física respondida em versos no Ginásio da Bahia e poemas de amor.
Isso sem negligenciar a influência internacional de Marighella e seu "Minimanual do guerrilheiro urbano", guia que correu o mundo e virou cult nos anos 1960. Traduzido para dezenas de idiomas, é tido hoje como um clássico da literatura de combate político, e levou Jean-Paul Sartre, admirador do estilo de seu autor e de sua disposição para a ação audaz, a publicar artigos seus na revista Les Temps Modernes.
Proclamado pela ditadura militar como seu inimigo número um, o guerrilheiro foi morto em uma emboscada policial em São Paulo, na noite de 4 de novembro de 1969. Do início ao fim, esta biografia de tirar o fôlego apresenta informações inéditas sobre a trajetória de Marighella e o atribulado e apaixonante tempo em que ele viveu.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Secretario de Cultura de SP capital Alê Youssef recebe representante de Saraus e Slams

O Secretario de Cultura do município de SP Alê Youssef recebe representante de Saraus e Slams em seu gabinete.

Declaramos aqui apoio aos representantes e agradecemos o secretario por ter nos recebido e visto nossa proposta como positiva

Valeu Sarau do Binho, Sarau Perifatividade, Sarau Encontro das Utopias, Sarau do Burro, Menor Slam do Mundo e Slam do Corpo nos sentimos representados

Seguimos

sábado, 5 de janeiro de 2019

Aonde é o rolê? com Verso em Versos na Agência Solano Trindade.


Tivemos a honra de receber o veículo de comunicação Aonde é o role? em nosso aniversário de 6 anos que aconteceu em nosso quilombo Agência Solano Trindade.

Foi uma celebração de acolhimento e o programa Aonde é o role? registrou  maravilhosamente.

O programa conta um pouquinho do Verso em Versos e também fala do futuro e algumas estratégias para 2019.

Queremos agradecer toda a equipe que teve uma sensibilidade incrível desde as pergunta até o registro e edição do vídeo

Que venha mais programas maravilhosos tanto quanto esse que tivemos a honra de participar e os passados…

LUZ NA CAMINHADA Aonde é o role? E CONTE COM Verso em Versos.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Verso em Versos nos 465 anos de SP

Verso em Versos nos 465 anos de SP
Sábado, 26 de janeiro de 2019 de 17:00 a 18:30
Local Casa de Cultura Campo Limpo
Rua Rua Aroldo de Azevedo, 100 - São Paulo
Ponto de referência Terminal Campo Limpo
LINK DO EVENTO
https://www.facebook.com/events/918322521845204/













domingo, 30 de dezembro de 2018

Verso em Versos nos 465 anos de SP

Sarau Verso em Versos faz parte da programação Aniversário São Paulo que vai completar 465 anos.
SÁBADO, 26 de Janeiro às 17:00 – 19:00
Local Casa de Cultura Campo Limpo
Rua Rua Aroldo de Azevedo, 100 - São Paulo
Ponto de referência Terminal Campo Limpo
Mestres de cerimônia
Aline Anaya + James Lino + Jaime"Diko" Lopes + Isac Andrade
Produção de El Choq Produções
LINK DO EVENTO
https://www.facebook.com/events/918322521845204/

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Luana Bayô na celebração de 6 anos de luta do sarau Verso em Versos

Luana Bayô na celebração de 6 anos de luta do sarau Verso em Versos
Lançamento Coleção Sambas Escritos produzido por Samba Sampa

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Verso em Versos - Litera Campo - Sesc Campo Limpo

Quinta Feira 13 Dezembro 2018 das 19h:30 A 21h antologia do sarau Verso em Versos vai ser lida pelo #LiteraCampo, que é o clube de leitura do Sesc Campo Limpo ! eeeeeeeeeee

Jaime"Diko" Lopes, James Lino , Aline Anaya, dona Eliane e Isac Andrade estarão por la para dialogar sobre como foi o  processo de fazer o livro junto Gessé Silva que diagramou o livro com a filinha dele que tem 6 ano de idade e chama Sosso e ajudou fazer a capa.

Nossa mana poeta Mel Duarte também estará presente ela compartilhou uma de suas poesias na antologia e mediando a conversa sera nossa mana Jenyffer Nascimento....

MAIS INFORMAÇÕES VEJA NO SITE DO SESC SEGUE O LINK ABAIXO

https://www.sescsp.org.br/programacao/175002_LITERACAMPO+ANTOLOGIA+DO+SARAU+VERSO+EM+VERSOS?fbclid=IwAR2k8LvbM7iTFSF5G4GHkWAAMWoNPH0K8O8jWYwhBGy-sOfWQyCESjQunMk

domingo, 9 de dezembro de 2018

Sarau Verso em Versos está no Festival Percurso!

Olá!

Estamos no Festival Percurso 2018 como Mestres de Cerimônia!

Confira abaixo a programação!

Ajayô Samba do Monte - Festival Percuso 2018*
Domingo 9 de Dezembro de 2018 das 12h as 19h
A 8a roda do Ajayô Samba do Monte acontece como parte das atividades do Festival Percurso de 2018.

Aniversário - 10 anos de Samba do Monte (2008 - 2018);

Encontro das Velhas Guardas do Samba em São Paulo presença confirmadas.

+ Zé Maria da Peruche

+ Seu Carlão, da Unidos do Peruche

+ Bernadete Cantora, da Unidos do Peruche

+ Ideval Anselmo, da Tom Maior. Camisa Verde e Branco, Rosas de Ouro;

+ Seu Carlinhos, da Unidos da Vila Maria

+ Silvio Modesto, da Pérola Negra

+ Marco Antonio, da Nenê da Vila Matilde

+ Dadinho, da Camisa Verde e Branco

Saudação aos Orixás   Nanã e Oxalá 

Afoxé Amigos de Katendê

Roda de samba com Roberta Oliveira, Raquel Tobias e o Bando de Lá

Diálogo sobre os Orixás com Mestre Aderbal Ashogun (RJ)

Arte e ambientação: Rodrigo Bueno do Mata Adentro e Jair Guilherme do Balaio Ateliê.

TRANSMISSÃO AO VIVO pela Rádio Mixtura

Exposição dos painéis de Jair Guilherme Filho que retrata os 16 orixás

TRAGAM CRIANÇAS

LOCAL* : Praça Do Campo Limpo no CITA

PONTO DE REFERENCIA* 5 min andando do terminal de ônibus do campo limpo


quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

A representação do brasileiro na literatura e a importância de uma escrita literária afrocentrada


A literatura rompe com o lugar comum da fala empregando um modo próprio de se expressar. Entretanto essa arte não se aparta da realidade já que a usa como referência, mas exige dos seus adeptos, isto é, do escritor, que esteja conectado com o mundo do qual a sua linguagem irá partir. Por essa razão é que a escrita periférica tem sido tão peculiar: ela agrega o colorido das pessoas e das favelas subjugadas pela elite e apagadas pelo poder público e, ao tratar da situação do negro, o empoderamento é mais contundente quando essa escrita é afrocentrada, isto é, praticada por autores negros.



Percebendo a importância de se acessar a seara literária com uma produção afrodescendente, a editora Quilombhoje – por exemplo –, dá visibilidade a uma escrita desprestigiada pela Academia dos cânones da Literatura brasileira e, há mais de quarenta anos, tem formado autores e leitores negros em diferentes periferias do Brasil na prosa e na poesia por meio dos seus “Cadernos negros”.

Essa literatura revela a capacidade de superação, do amor na infância, da dúvida no futuro, da morte e de tantos outros temas universais que perpassam, também, a existência e as mãos pretas. Entende-se, assim, que a produção literária negra é uma celebração e uma libertação, além de engendrar uma rica estética na poesia, na crônica e no conto brasileiro.

Como a linguagem literária chama a atenção sobre si mesma, as marcas de oralidade, os coloquialismos e a quebra da sintaxe formal presente nos muitos autores da periferia, delegam ao leitor a tarefa de mergulhar numa realidade provocativa e perturbadora, decifrando gírias, galgando ritmos e conectando uma sintaxe popular com o lugar de fala desses escritores e escritoras negros e negras, que não explicam sua obra, mas também não negam os clássicos, conforme advertiu Solano Trindade. Nessa escritura independente, publicada longe das grandes editoras e lançada nos vários saraus espalhados pelas cidades é que o leitor encontra o que há de mais visceral na literatura afroscentrada.

No entanto, essas obras não tratam de uma escrita da ou para a periferia, mas uma escrita Na periferia, de uma perspectiva inerente no morador mais afastado dos centros urbanos das cidades brasileiras, a exemplo do que fez Carolina Maria de Jesus em seu “Quarto de despejo”, já que ela transgride o imediatismo da sua realidade por meio de uma imersão metafísica e poética na sua condição de favelada, ou de “uma mulher cujo pecado foi a maternidade” e tal qual Carlitos sonha ser mais do que aquele lugar a limita.

Eu durmi. E tive um sonho maravilhoso. Sonhei que eu era um anjo. Meu vistido era amplo. Mangas longas cor de rosa. Eu ia da terra para o céu. E pegava as estrelas na mão para contemplá-las. Conversar com as estrelas. Elas organisaram um espetaculo para homenagear-me. Dançavam ao meu redor e formavam um risco luminoso.
Quando despertei pensei: eu sou tão pobre. Não posso ir num espetaculo, por isso Deus envia-me estes sonhos deslumbrantes para minh´alma dolorida. Ao Deus que me proteje, envio os meus agradecimentos.
(Carolina Maria de Jesus)

Acerca disso Antonio Cândido postulou que o escritor não fica alheio ao grupo social o qual pertence seu público leitor, visto que a obra literária se condiciona a ele em certa medida dialógica, modificando o seu comportamento e formando uma identificação que pautará, muitas vezes, a sua obra.

Por isso, todo escritor depende do público. E quando afirma desprezá-lo, bastando-lhe o colóquio com os sonhos e a satisfação dada pelo próprio ato criador, está, na verdade, rejeitando determinado tipo de leitor ideal em que a obra encontrará verdadeira ressonância. Tanto assim que a ausência ou presença da reação do público, a sua intensidade e qualidade podem decidir a orientação de uma obra e o destino de um artista
(Cândido 2011)

Em outras palavras, a obra periférica é uma construção social em colaboração entre escritor, escritura e o público leitor; o lugar de fala, outrossim, também é preponderante nessa literatura tão peculiar aos seus praticantes.

Essa pegada literária do lugar-personagem é uma inovação interessante. Não é mais objeto dos devaneios românticos sobre a paisagem, não é mais fator determinista das ações como no Naturalismo, não é mais índice nacional como no Modernismo, nem cenário hiper-real do Pós-Modernismo. É um local eloquente, um fator literário e textual forte tão importante quanto seus habitantes
(HOLLANDA, Heloísa B de. Apresentação. In: VAZ, Sérgio. Literatura, pão e poesia, 2011)

Produzir literatura no Brasil tinha sido um privilégio apenas da elite desde a gênese do registro literário brasileiro. No entanto, do clamor por espaços públicos mais plurais, por arte e por educação de qualidade, o poeta-cidadão declamou a revolta de um “povo lindo e inteligente” inserido numa realidade pulsante de lirismo contra o flagelo do silenciamento forçado a partir da negação da liberdade artística. Esse cidadão-poeta se percebeu poeta e se encontrou cidadão, não aceitando a exploração dos seus, desprovidos de oportunidades e encolhidos por políticas medíocres cujas medidas apenas fomentam o apagamento do protagonismo da periferia no cenário cultural brasileiro.

Embora seja consenso entre autores como Massaud Moisés,  Alfredo Bosi e Antonio Cândido, três dos maiores críticos da nossa literatura, que a escrita brasileira passou a ter as feições do Brasil a partir do século XIX, é sabido que uma enorme parcela desse Brasil não participava da literatura e quando era mencionada, não protagonizava sua própria história ( Bertoleza e Rita Baiana em “O cortiço”, de Aluísio Azevedo, são exemplos disso, pois representam uma caricatura da mulher brasileira desprestigiada por ser afrodescendente, ocupando apenas o espaço da hiper-sensualização e da total submissão ao homem branco), logo personagens como a mulher questionadora no poema “Academia”, de Débora Garcia são mais sensíveis ao retrato da negritude brasileira legítima, que impõe sua originalidade ao olhar fantasioso e falacioso de parte da academia literária que ainda sofre do complexo de colonizado:

Academia


A negra quer dançar
E com fé saudar seus orixás
Saias rodadas
Adornos da fé.
[...]
Todos a aplaudem
Na academia
Cultura negra
Entretenimento é?

A negra quer falar
Sua condição denunciar
Ela sabe argumentar,
questinoar, responder,
ações afirmativas defender.
[...]
O salão esvaziou-se
Na academia.

Cultura negra
Entretenimento é.

(Débora Garcia)

Desse modo aliterações e assonâncias combinadas a versos irregulares, pouco comuns na poesia cânone, porém difundida entre os poetas periféricos, visa a criar uma sensação de movimento dinâmico na ação poética que tem a dança ou a música como elementos centrais – como nos versos “Gira a roda / A roda gira / Todos a aplaudem / Na academia” –, deixando evidente o quanto a poesia negra tem a contribuir com os estudos literários brasileiros, visto que a “roda”, isto é, o movimento circular ritmado personificado na roda “de expectadores” ou “da vida” é o símbolo da mudança de paradigma social protagonizado por agentes negros e negras que passaram a figurar na arte escrita do Brasil apenas no início do século XX em autores que ainda são pouco prestigiados no nosso século, salvo Solano Trindade, Lima Barreto, Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus.

Se os autores periféricos não fossem engajados, ou se fossem alheios à sua realidade, talvez a escrita que praticam continuaria no obscurantismo de classificações genéricas como “marginal” ou qualquer outra que não lhe conferiria prestígio. Entretanto, o engajamento do escritor-cidadão torna a sua arte única, consumível e diligente. Negar isso, é negar o que seja a própria Literatura.

[...]Contra a arte patrocinada pelos que corrompem a liberdade de opção.Contra a arte fabricada para destruir o senso crítico, a emoção e a sensibilidade que nascem da múltipla escolha.A arte que liberta não pode vir da mão que escraviza.A favor do batuque da cozinha que nasce na cozinha e sinhá não quer.Da poesia periférica que brota na porta do bar.[...]Contra a arte domingueira que defeca em nossa sala e nos hipnotiza no colo da poltrona.Contra a barbárie que é a falta de bibliotecas, cinemas, museus, teatros e espaços para o acesso à produção cultural.[...]
(Sérgio Vaz, 2011)

Nesse trecho do “Manifesto da antropofagia periférica”, a exemplo do que fez Oswald de Andrade no seu próprio manifesto de 1928, Sérgio Vaz verbaliza o sentimento dos agentes-escritores-engajados-cidadãos da periferia em efervescente atividade cultural no início do século XXI e, apresentando um nicho da sociedade que ainda não havia sido devidamente representado na cena literária brasileira, também proprõe uma revisão da história dessas pessoas ao lembrar da luta pela resistência e liberdade dos afrodescendentes que migraram da senzala para a periferia, essa “senzala moderna”, mas hoje protagonizam a retomada de consciência de que ocupar os espaços de poder é o meio mais efetivo para reparar a exclusão secular que gerou uma cultura de medo e acovardamento diante da exploração de um estado escravocrata sofrido desde o tempo do cativeiro pelos filhos e filhas dos primeiros negros que povoaram as áreas mais afastadas dos centros urbanos: as periferias. Assim, a antropofagia periférica não corresponde apenas à estética dos seus artistas, mas também à necessidade de não se limitar ao perímetro urbano, deixando-o apenas para servir ao patrão.

Finalmente pode se dizer que o “artista-cidadão”, ou seja, o artista da periferia é dotado da sensibilidade necessária para refletir na obra o seu lugar de fala, cuja especificidade o torna difícil de ser representado por aqueles que não vivem ou já tenham vivido numa construção irregular e mal acabada de alguma rua estreita e pouco iluminada, ou de uma viela ou escadão com portas e janelas improvisadas em meio ao esgoto a céu aberto e aos santinhos políticos em ano de eleição. A estética da periferia guarda consigo um movimento literário de grande potência nacional, numa rede de células que se agitam e corroboram para visibilizar a própria periferia. Essa é a rede dos saraus e dos slams que representa a voz do brasileiro que está no alicerce da nação.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Verso em Versos IV Circuito CITA - Cultura Tradicionais e Periferias

Hoje 30 de novembro as 20h o Sarau Verso em Versos IV Circuito CITA - Cultura Tradicionais e Periferias homenageia nosso mestre Geraldo Magela. Cheguem com sua voz, sua música, sua poesia. TRAGA CRIANÇAS R. Aroldo de Azevedo, 20 - Jardim Bom Refugio- São Paulo Praça do Campo limpo 5 minutos a pé do Terminal Campo Limpo https://www.facebook.com/events/542606439518475/

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Sarau de Cordas recebe Verso em Versos na última do ano

Salves!

Neste Sábado tem Sarau de Cordas, em sua ultima edição do ano, receberá o cantor Vitor da Trindade e o Sarau Verso em Versos!

Não perca esta oportunidade e venha declamar sua poesia!

Mais informações no link!

https://www.facebook.com/events/1376286719174437/?ti=as

ULTIMO SARAU Verso em Versos DE 2018



quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Sarau: um expediente a serviço da liberdade popular


“O sarau é o bocado mais delicioso que temos, de telhado abaixo. Em um sarau todo o mundo tem que fazer [...] no sarau não é essencial ter cabeça nem boca, porque, para alguns é regra, durante ele, pensar pelos pés e falar pelos olhos.

Inúmeros batéis conduziram da corte para a ilha senhoras e senhores, recomendáveis por caráter e qualidades; alegre, numerosa e escolhida sociedade enche a grande casa, que brilha e mostra em toda a parte borbulhar o prazer e o bom gosto”.
(MACEDO, Joaquim Manoel de. A moreninha)

Diferente desse sarau burguês em que pensar e falar é irrelevante, na periferia o sarau não é apenas um lugar, um “mic” ou um evento social onde os participantes estão ali “de rolê”. O sarau é um importante instrumento de resistência da cultura popular periférica, organizado e compartilhado pelo operário que, por algumas horas, comunga a poesia entre os seus pares.

Esse expediente é o legítimo lugar de fala do artista popular, sobretudo poetas, preocupado em fazer da sua arte um meio de combate contra a vilania dos maus patrões, das políticas abusivas e da alienação do povo pobre subjugado por uma elite escravocrata que centralizou a cultura, afastando-a da periferia. Por isso os saraus entre becos, vielas, praças e bares têm sido os legítimos espaços de democratização da literatura.

O poeta Sérgio Vaz, um dos fundadores de um dos mais importantes saraus da zona sul paulistana, em entrevista para a TVT mencionou que  por estar abandonada, sobrou apenas os alunos e os professores na escola, e esses últimos levaram a rua para dentro dela a fim de que todos fossem resgatados, inclusive eles próprios. O “levar a rua” é exatamente apresentar para a juventude pobre a força dos saraus de periferia, essa sociedade de poetas vivos que dialoga Com eles.

Por essa razão que figuras como Vaz, Jefferson Santana, Jaime “Diko” Lopes (fundador do Verso em versos), Thata Alves (fundadora do sarau da ponte pra cá) e tantos outros articuladores culturais são importantes para a literatura brasileira e para a cultura periférica e, justamente por fomentarem o consumo e a produção da legítima arte do Brasil, são comparáveis aos idealizadores da Semana de arte moderna de 1922 ou da Tropicália da década de 1970. No entanto, a cultura da favela não precisa desses rótulos porque ela é o mundo manifesto no traço do verso martelado na condução, na pausa para o almoço, na fila do banco, entre uma faxina e outra ou durante o sarau mesmo.

O sarau acontece à noite, pois é no apagar das luzes “do serviço” que as pessoas se reunem para fazer poesia e, ao menos uma vez por semana, compartilhar versos, discursos e sonhos com aqueles cuja força motriz é a poesia, é a literatura marginal periférica que traduz o seu interior.

Ademais, a literatura marginal ensinada nas escolas brasileiras não contempla a arte da periferia, sequer a considera uma expressão legítima da arte. Todavia a potência da literatura popular estimula os professores mais engajados a levá-la consigo para dentro da sala de aula. Assim, o aluno passa a compreender que a literatura marginal periférica não é apenas uma forma artística, mas uma expressão da resiliência de um povo que já produzia literatura muito antes de saber que aquilo que faziam fosse arte.

Por conseguinte, muitos escritores periféricos retornaram à sala de aula para aprender mais sobre si mesmos e sobre como resgatar a identidade na sua “quebrada”, visto que, além de apresentar a literatura para seu povo, o sarau também pode formá-lo de maneira crítica e engajada para que perceba a importância de caminhar junto com o “artista cidadão”, isto é, o artista sem mídia e que não é menor por isso.

Atualmente há saraus nos mais variados formatos, até mesmo itinerantes como os Poetas ambulantes, que têm levado a experiência da literatura para dentro das conduções diárias onde estão os trabalhadores que não podem frequentar o sarau em seu espaço físico. Entretanto, há quem diga que o sarau tenha perdido sua essência pela profusão de grupos que têm surgido nos últimos anos dispostos a realizar esse trabalho de fomento da cultura periférica justamente por não darem espaço ao livro, isto é, ao texto escrito, motivo pelo qual a literatura é tão importante como catalisadora das potencialidades do indivíduo, sobretudo em condições de vulnerabilidade social.

Muitos saraus acontecem no “buteco”, ponto de encontro histórico do trabalhador que o tem como um lugar de alívio pós-expediente – o “Happy hour” –, que foi ressignificado pela poesia, tornando-se, se já não era, o centro cultural da periferia. Sobre isso afirma Antonio Cândido (2011) 

A literatura é coletiva, na medida em que requer uma certa comunhão de meios expressivos (a palavra, a imagem), e mobiliza afinidades profundas que congregam os homens de um lugar e de um momento, para chegar a uma “comunicação”.

Nas palavras desse célebre professor, o espaço literário comum aos membros de um grupo social corrobora para que a comunhão entre eles eleve o seu nível de humanidade de tal modo que fortalece os laços afetivos dessa comunidade, sobretudo o sentimento de pertencimento ao lugar que aos poucos tem se incluído na cena cultural brasileira. Isso agrega significativo valor à juventude periférica.

Michèle Petit (2008), antropóloga francesa, conviveu muito tempo com os jovens marginalizados de grandes cidades francesas para confirmar o poder elucidatório, redentor e modificador da leitura nos jovens:

Para a grande maioria dos jovens dos bairros marginalizados, o saber é o que lhes dá apoio em seu percurso escolar e lhes permite constituir um capital cultural graças ao qual terão um pouco mais de oportunidade [...]

Petit também evoca o fato de que a leitura permite ao jovem a apropriação de um uso mais competente da língua, pois, muitas vezes, a falta disso representa um entrave social para ele. O sarau, portanto, desafia o indivíduo a superar sua limitação linguística para transpor as limitações que possa encontrar na linguagem.

Por fim, graças aos saraus a literatura periférica tem conquistado mais espaço no cenário literário nacional como uma arte legitimamente marginal, do povo, de luta e de resistência. E ainda há quem os chamem de quilombos culturais.

domingo, 4 de novembro de 2018

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Poster Verso em Versos 6 anos de resistência

Poster Verso em Versos 6 anos de resistência SÁBADO, 27 de Outubro às 11:00 – 23:00 Véspera de eleição Rua batista crespos 105 na Agência Solano Trindade Ponto de referência Terminal Campo Limpo MAIS INFORMAÇÕES LINK DO EVENTO https://www.facebook.com/events/500500150402988/ El Choq! Produções Ilustração Julio Falas

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Verso em Versos 6 anos de resistência

*Verso em Versos 6 anos de resistência*
SÁBADO, 27 de Outubro às 11:00 – 23:00
*Véspera de eleição
Rua batista crespos 105 na Agência Solano Trindade
Ponto de referência Terminal Campo Limpo
MAIS INFORMAÇÕES

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Transformação com Michel Yakini

TRANSFORMAÇÃO.

A poesia transforma com o poeta Michel Yakini
Uma pequena entrevista com poetas sobre o tema.

São apenas três perguntas e as respostas estão abaixo

+ Como a poesia surgiu na sua vida?
A poesia surgiu nas cantigas de coro e palmas dos terreiros de umbanda, no olhar atento  da versação da capoeira, no ouvido atento das histórias do nego veio no buteco, e no incentivo da mulecada em escrever cartinhas de amor pras paquerinhas deles na escola

+ Como você era antes da poesia?
Um menino que revoava sonhos com um par de chuteira nas mãos, e que canalizava jogar ao lado de Amoroso, Djalminha no Guarani, fazer dupla de zaga com Juan no Flamengo. No meio disso, trampava na feira, no mercadinho, lombando escadas pra instalar telefone nas quebradas afora.  Ah também era (e ainda sou) caminhante noturno.

+ Quem você é depois dela?
Continuo canalizando ser jogador de futebol e viajar o mundo (agora) com as asas da palavras.  Hoje faz mais sentido conversar com o sol e a lua, do que fritar pelas injustiças do mundo, isso me deixa doente. Um copo de agua, bebido na moralzinha, me diz melhor o que fazer nesses caminhos de belas encruzilhadas. Dias atrás, não tinha expectativa de chegar nem aos 30 anos, então o que posso fazer de melhor hoje é agradecer

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Jairo Periafricania lança o video clip

Jairo Periafricania lança o vídeo clip BEL PRAZER por
com participação da  Kelly Neriah que faze parte do grupo Versão Popular 


Direção Geral - João Ribeiro @joaoarcenas
Edição - Bruno Okuyama @bruokuyama
Fotografia - Gabriel Alves
Produção musical Dj Márcio e Honda Silva
Produção - Projeto A-FRÔ @projetoafro
Apoio COOPERIFA e BG Produções

domingo, 30 de setembro de 2018

A ótica literária no passeio pela cidade: diferentes visões, diferentes lugares de fala


Nascer periférico no Brasil é como ser a flor que rompe o asfalto, alguns negam que seja uma flor, que seja a flor-resistência e, embora não enxerguem as raízes, tentam arrancá-la, debalde, pois essas raízes são de além-mar. Então sufocam-na o mais que podem, mas tantas outras flores-resistência impedem essa ação exalando poderoso perfume pelos tímpanos, olhos e pele do algoz jardineiro, contornando a aspereza do débil senso de que a vida daquela flor tenha sido concebida ali, no asfalto, já que o opositor jardineiro não percebe mais do que sua insegura visão lhe permite. O perfume das flores-resistência é ancestral, suas raízes estão para além-tempo.

Nascer periférico, e negro, no Brasil e desconectado de tudo isso é doloroso, pois a mão do jardineiro pesa, é sentida até seus calos, mas o perfume das flores-resistência causam, outrossim, dor e febre, no corpo negro que precisa se restaurar.

Essa febre é acompanhada de convulsões porque o corpo se lembra da fragrância rejeitada por uma mente que ainda não saiu do cativeiro, e esse obstáculo é tão forte quanto o asfalto, e tão transponível quanto essa pedra cinza também.
É interessante como quebrar as barreiras sociais pode ser potencializado pela literatura periférica e tão parecido com uma flor que “rompe o asfalto”. No entanto, a perspectiva de Drummond e de tantos outros poetas que vivenciam as cidades de fora da periferia não contempla os vários olhares da favela, que trazem a dinâmica de pessoas as quais vivem na exclusão, mas encontram o lirismo para viver num mundo cínico em que a cena não lhes favorecem.

Por essa razão a importância de conhecer e consumir a literatura periférica, pois isso fortalece uma parte da sociedade invisibilizada por políticas públicas que estão na contramão do progresso social, visto que o estudo literário é necessário para a construção e reconhecimento do caráter de um povo e, embora os autores favelados não estejam na cena cultural midiática – cânone – essa cultura carece de apreciação para que, inclusive, o preconceito contra o operário diminua em obras por meio das quais sua vivência seja abordada artisticamente.

A literatura periférica resiste e reside além das fronteiras sociais impostas:

Amor periférico

No entanto
tinha tudo pra dá errado com pranto
se existisse música triste o canto
muito duro muito rude no pagode

Vê se pode
eu alado de angústia e sacode
meu romantismo “chamá-la no bigode”
escondendo a tristeza que me prende

Não se rende
ela no jeito de que entende
qualquer mágoa no peito ela defende
e teus olhos nos meus, uma dança

Onde trança
as ideias dos olhares; confiança
enxugar as tempestades pra bonança
o barraco transformar no Monte Olimpo

Onde garimpo
ofendendo o incrédulo e o ímpio
ternura da Divinéia ao campo limpo
o lado de cá não cadavérico

Esotérico
nem problemático nem bagunçado, nem histérico
mi casa é o termômetro periférico
nem triste nem pra baixo nem careta

O planeta
girando confuso em mim e na preta
era nós dois afastando da gente a treta
o coração no coração tudo dizia

A energia
junto era melhor como um só agia
não e truque de burguês essa magia
a gente se entende na lida

E lapida
a caminhada que foi tão dividida
nós fortalecemos nossa vida
alimentando no beijo o que fomos

E propomos
ser real nos poemas o que pomos
ser continuação do que somos
sem mentira só verdade a gente sabe

Que desabe
o mundo. E nós em nós se cabe
nos Cingapura, favela e Cohab
esmagando corrente e pelourinho

Com carinho
paciência e mãos dadas no caminho
da hora mesmo tá feliz, mesmo sozinho
porque logo mais o eterno encontro

Onde conto
pra esmagar frustração tamo pronto
é agora alegria esse ponto
pro bom da vida a gente acende o fulgor

Pelamô

(Akins Kintê) 

Esses versos de Akins Kintê são da sua obra “Muzimba: na humildade sem maldade”, livro de estreia desse poeta musical que, por meio do qual, apresenta os caminhos da sua poética transitória entre saraus, cortiços, becos e vielas das diferentes periferias da cidade de São Paulo; e esse poema demonstra bem que nem tudo na poesia periférica é enfrentamento – ao menos não direto. Ademais, os poemas líricos declamatórios também estão presentes na estética da periferia, visto que o amor também é um ato de resistência.

Claro que para entender o amor como uma força que está para além do sentimento e emoções dos amantes, isto é, um ato de resistência, que “esmaga frustrações e correntes” compartilhadas por ambos, num apogeu particular de sinergia no “eterno encontro”, e que afasta tudo de ruim que possa acometer esses indivíduos que amam, é preciso se colocar no lugar de fala desse eu lírico periférico, comum àqueles que dividem da mesma dor e dos mesmos artifícios de resiliência, por exemplo.

Os versos a seguir de Solano Trindade confirmam que o “amor periférico” simboliza o que há de mais caro no sentimento de pertencimento ao lugar e de cuidado de si e do entorno do cidadão das periferias, do operário das cidades, construtor invisível da máquina social, que o esmagaria sem dó, se não fossem os escritos de tantos autores seus iguais.

Baianinha

vatapá permanente
doce de coco
cafuné dendê
você veio na hora
quentinha
pra minha vida
trazendo o dengo
do que eu precisava.
Candomblé da minha madrugada
batendo em mim
que sou tambor creoulo
com patuá
envolvendo meu pescoço
com patuá
envolvendo meu pescoço
botando em minha boca
feitiço de Iansã.
Você veio agora
como a revolução de Cuba
me animar a vida
Você veio agora
como a libertação do Congo
me tocando pra frente
e fazendo esquecer
o tempo
e a velhice.

Você veio agora
fazer mutirão comigo…
(Solano Trindade)

Embora o amor não seja apenas um meio de sobreviver às agruras da vida, Solano Trindade o compreende como redenção, igual a alguns dos poetas renascentistas, por exemplo, Camões, o qual também considerava o amor como uma forma de rejubilo da existência:

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
(Camões)

Solano, no entanto, explicita um amor de um lugar de fala diferente daquele compartilhado pelos poetas clássicos, um lugar que sequer deveria existir, a favela – que não só existe, como também molesta a todos os seus moradores e, paradoxalmente é o ponto de mutação entre a resistência e a condescendência às políticas de embranquecimento do povo Brasil. Por outro lado, esses versos não são sobre o amor ou sobre a favela, mas sobre um indivíduo que se percebe no lugar de fala de quem ama numa região, porém trabalha noutra mais ao centro, onde mais tempo passa, dentro da mesma cidade, deixando o leito em outro extremo. 

Ademais, Mário de Andrade, poeta clássico, renomado e imortal do Brasil, também foi um aficionado da capital paulistana, e a vê de uma perspectiva diferente dos poetas periféricos:


Garoa do Meu São Paulo

Garoa do meu São Paulo,
-Timbre triste de martírios-
Um negro vem vindo, é branco!
Só bem perto fica negro,
Passa e torna a ficar branco.

Meu São Paulo da garoa,
-Londres das neblinas finas-
Um pobre vem vindo, é rico!
Só bem perto fica pobre,
Passa e torna a ficar rico.

Garoa do meu São Paulo,
-Costureira de malditos-
Vem um rico, vem um branco,
São sempre brancos e ricos...

Garoa, sai dos meus olhos.

(Mário de Andrade, Puliceia desvairada)  

A neblina, a garoa, vislumbrada pelo poeta da Pauliceia desvairada é um elemento que iguala a todos numa metrópole plural, mas também  que serve para esconder a iniquidade inerente a essa grande cidade e, talvez, essa percepção causava horror ao estudioso apaixonado por São Paulo e consciente da limitação da sua própria perspectiva de homem branco e de não morador de todas as São Paulos.

Embora Oswald de Andrade tenha dito que a massa se serviria do seu “biscoito fino”, este continua distante dos moradores do Jd.Ingá, do Pq. Arariba, da Vila Gilda, do Jd. Peri e de tantos outros bairros cujos parques lotam de crianças que mal leem a cartilha da escola. O “biscoito fino” de Oswald não chega porque seu distribuidor mantém o foco unicamente na região central, para a periferia chega apenas a fábrica e a fome.

Da mesma forma que os modernistas buscavam uma literatura nacional, a poesia periférica busca o caráter do seu povo, sem pretensão de generalizar o Brasil, e na medida em que a história é deturpada por aqueles que a manipulam para que ela dê a falsa ideia de democracia racial, muitos poetas negros e negras escancaram que não é bem assim:

Sociedade dos poetas vivos

Entre xenófobos e lobos bobos
a ingenuidade dos utópicos
não vai salvar florestas
as ruas dos esquecidos nos trópicos
parindo poetas,
você viu?
não dá uma coluna de jornal
em que caiba
o espelho da gente gourmet que não reflete as caras sertanejas
em que me enxergo
e os poetas do asfalto não serão resenhados por Antonio Candido
[...]

E os professores da língua
Portuguesa do Brasil
ainda pensam que ensinam
o emprego dos porquês
(Michele Santos, Toda vida,) 

A poesia de Michele Santos, poeta ambulante nas conduções da cidade de São Paulo, é um exemplo de que o estudo da literatura deve passar pelo crivo do estudo da sociedade, visto que o lugar de fala do poeta, isto é, sua ótica é muito importante para compreender a motivação do poema e sua importância como instrumento de reconhecimento. Afinal, as orientações sociológicas e psicológicas são importantes instrumentos para a interpretação do fato literário (Candido, 2011), mas não reduzem o poeta quando se entende que este transforma a realidade, não para explicá-la, mas para confrontá-la com a poesia que encontra nela.

Negro drama

Crime, futebol, música, caraio
Eu também não consegui fugir disso aí
Eu sou mais um
Forrest Gump é mato
Eu prefiro contar uma história real
Vou contar a minha

Daria um filme
Uma negra
E uma criança nos braços
Solitária na floresta
De concreto e aço

Veja
Olha outra vez
O rosto na multidão
A multidão é um monstro
Sem rosto e coração

Ei, São Paulo
Terra de arranha-céu
A garoa rasga a carne
É a Torre de Babel

Família brasileira
Dois contra o mundo
Mãe solteira
De um promissor
Vagabundo

(Racionais MC)

O drama do negro periférico em São Paulo é muito maior do que o próprio negro da periferia que, muitas vezes, tem dificuldade para se perceber, mas que não se parece com o mesmo da neblina que turvava o poeta Mário de Andrade. Isso é uma questão de ótica mesmo.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Transformação Quina

Como a poesia surgiu na sua vida?
A poesia surgiu antes de eu imaginar que tantos desabafos eram.na verdade poesia. Na adolescência.

Como você era antes da poesia?
Antes da.poesia era um nó na garganta.

Quem você é depois dela?
Depois dela sou tudo, através dela me transformo todo dia.








POEMA

"Por cima da cama
Dois corpos suados, o extasiados,  nus.
Por dentro dos olhos um sorriso,  nós,  luz.
De todos os gritos,  sussurros e gemidos também teve blues. "

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Transformação com Márcio Ricardo

Como a poesia surgiu na sua vida?
A poesia surgiu com as rimas, eu não tinha amigos aos 6 anos, e daí aprendi rimar antes de aprender ler e escrever. Quando eu entrei na escola e aprendi ler e escrever comecei a conhecer melhor o som e tom das palavras e enriqueci o meu vocabulário. Quando eu tinha algum problema eu não conseguia desabafar com ninguém, nem na escola e nem em casa. E um dia vi um livro de poesias e vi que nas estrofes tinham os versos e os versos contia rimas. Daí eu trocava ideia comigo mesmo, a primeira estrofe rimando eu falava sobre os meus problemas, a segunda eu fingia que era alguém de fora e tentava resolver os meus problemas, e por aí vai. A poesia desde criança para mim é como se fosse um corte, não rasga a pele, mas você precisa ver como fica a nossa alma quando colocamos para fora todas as coisas boas e ruins que sentimos.

Quase fui jogador de futebol, e por necessidade tive que parar de estudar aos quinze para chegar no horário correto no clube que eu jogava, machuquei o meu joelho e o clube não quis pagar a minha cirurgia, dai tentei voltar a estudar, mas não consegui vaga em nenhuma escola do Grajaú. Só voltei a estudar com 21 anos, fazendo o EJA, a suplência. Lá, uma vez fui zoado por estar escrevendo poesias, daí levantei e falei uma poesia para todos, uns gostaram outros não, mas o importante foi o respeito. Conheci a que é hoje minha madrinha na arte, Maria Vilani, e ela me apresentou o centro de Arte e Promoção Social. Em uma roda de poesia mostrei meus textos, que chamou a atenção de um filósofo chamado Cesar Mendes da Costa, que tem uma editora no parque Sto Antonio e apostou em mim, publicando o meu primeiro livro, o "Felicidade Brasileira". O resto muitos ja sabem da história, surgiu o poeta Márcio Ricardo.

+Como você era antes da poesia?
Acho que a poesia sempre foi o melhor dos ouvidos, no papel e caneta eu podia gritar, e falar e falar (escrever), que ninguém nunca iria me julgar, me cortar...
Porém o ser humano é muito invisível para a sociedade, e eu não era diferente.

Quem você é depois dela?
Hoje eu sou amigo e conheço grandes escritoras e escritores, pessoas que me representam e representam os meus, os nossos. Pessoas que eu olho para o lado e digo: "Não tô só".
A poesia é um grito, e hoje eu agradeço tudo que sou e o que ainda posso ser graças a ela.

Pra quem nasceu dentro de uma viatura, sem forças para chorar, e depois ser adotado e passar por tudo que passei até hoje, é uma conquista poder escrever uns versos, e quando alguém me ouvi, é um pedaço do paraíso, e não digo que é por ego, e sim por merecimento de uma linga estrada de quase 28
 anos.

 

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Transformação com Victor Rodrigues

Como a poesia surgiu na sua vida?
Ela surgiu como uma rota de fuga. Ou um plano de vingança. E uma questão de sobrevivência. Eu cresci quieto e meio perdido, sem ver muito sentido nas coisas que me eram apresentadas. Fiz um monte de curso profissionalizante, trabalhava, fazia faculdade pra poder ser promovido. Seguia a cartilha da ascensão social à risca. Mas tava ficando doente. Aquilo era muito pouco e cruel. A vontade de viver ia acabando. Aí a poesia virou refúgio. Mas apareceu bem no susto. Eu não tinha esse contato tão claro com ela quando era mais novo, nem de ler nem de escrever. Foi rolando a partir duns 19 anos mais ou menos, quando eu já não aguentava mais mesmo e precisava por pra fora. Aí um mundo se abriu e eu me apeguei a ela como o que me restava.

Como você era antes da poesia?
Bastante quieto e deslocado. Não me via em lugar nenhum, me colocava pouco, só observava. Rolou muita coisa na minha vida que me fez ficar escondido pra dentro. Doenças, tretas, crises. Da morte do pai à relação com a mãe, da depressão ao marcapasso. Esse mundo não servia, desde cedo eu sentia que tinha alguma coisa errada.

Quem você é depois dela?
A poesia trouxe um negócio esquisito com a vida. De perder o medo de correr o risco. De se ver na palavra e nos outros que ela carrega. Continuo perdido, deslocado e vendo muita merda no mundo. Mas agora não tão sozinho. Tem a palavra pra acompanhar sempre. E essa necessidade de inventar mundos no texto. De sair de dentro e exercitar minha fragilidade. De se encontrar na sensibilidade das coisas. Às vezes só faz aumentar a carga de coisa pra carregar, mas às vezes alivia. Foi uma escolha de viver a vida, construindo junto.

Transformação com Peu Pereira

Como a poesia surgiu na sua vida?
Tenho um irmão que sempre leu muito, o Iuri Pereira. E tinha alguns livros de poesia e também ouvia umas músicas “diferentes”. Na década de noventa na zona sul de São Paulo, no Parque Santo Antônio, ouvia-se sobretudo Racionais e os pagodes noventistas. “O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade?”…
E uma vez ele tava escutando uma musica do Secos e Molhados e as palavras da letra da música nunca mais saíram de mim: “Se eles têm três carros, eu posso voar”.

Como você era antes da poesia?
Eu trabalhava como camelô e tinha que ir do parque Santo Antônio até o túnel Nove de Julho. Eram umas três horas de ônibus por dia, então eu precisava fazer alguma coisa enquanto estava ali. Ainda bem que não tinha celular nessa época. Nesse trajeto de ida e volta li muitos livros. Lembro do primeiro que li, foi um do Sidney Sheldon sobre umas enfermeiras, lembro muito pouco da história. Depois li bons livros como Olhai os lírios do campo, do Érico Veríssimo, Agosto, do Rubem Fonseca, a parte do inferno da Divina Comédia, o Poderoso Chefão… Li uma porrada de livros até que apareceu um do Manoel Bandeira. E gostei de mais. Depois fui aprendendo a identificar os tipos de leituras que mais me agradavam pra poder estar sempre lendo.

Quem você é depois dela?
Leio muita gente do movimento de Literatura da Periferia como de outros lugares do mundo também. Gente viva e gente morta. conheci muito gente depois dos saraus da Coopera e do Binho. Acho que ler é o que mais importa, mais do que escrever até. Porque quando lemos tiramos um tempo para nós mesmo. Para pensar, imaginar e refletir o mundo e a vida. E afinal é isso que importa. Ter os seus momentos, sentir sua singularidade nesse universo, refletir o tempo e a existência. Como surgimos? Eis o maior mistério. 

Poema

As valentias do mundo

O que tem faltado pra gente?
Usamos drogas pra sentir o amor
Para tocar na pele e olhar nos olhos
Já não conquistamos sensações
Com nossos próprios corpos
O que nos tem faltado?
Somos a juventude e gostamos
Mais de ácido e cocaína
Do que de política e rock and roll
Do sexo sabemos apenas penetrar 
Desaprendemos sentir os poros
Rompendo em milhares de fissuras
Transfundindo todos os sangues
Gostamos mais dos nossos carros
Do que do pau duro
O que será mais falso?
Nós usamos as drogas
E nossos pais não vão morrer de overdose
Vão morrer de trabalhar e só.
Todos os poemas bonitos
Não valem uma pedra contra o sistema.
Fim da conversa no bate-papo
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Transformação com Jefferson Santana

1 Como a poesia surgiu na sua vida?
A poesia surgiu pra mim ainda na época da escola. Eu tava na oitava série quando comecei a escrever meus poemas. Tinha até caderno, mas não achava que isso me levaria pra muito longe. Eu escrevia só pra ter um modo de expor e me livrar das minhas aflições.

2 Como você era antes da poesia?
Eu era uma pessoa fechada, muito mais que hoje, quase não conversava. Minha visão de mundo também era bem limitada.

3 Quem você é depois dela?
Depois da poesia e principalmente depois que conheci os saraus me transformei radicalmente. Comecei a enxergar meu papel no mundo, comecei a me posicionar contra as injustiças e lutar por dias melhores. A poesia pra mim é mais que uma graduação.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

O poder restaurativo da literatura periférica

Do terrorismo nos morros e vielas ao impedimento nas assembleias e passarelas, o negro é inviabilizado no Brasil por meio de políticas públicas que não favorecem a sua participação nas esferas de poder do país. Isso significa que sem representação também não há o reconhecimento da comunidade negra como atuante na história da formação da economia brasileira, não apenas do povo do Brasil, por conseguinte a autoestima desse contingente fica rasteira.

Essa realidade é sentida por todas as gerações que desde a mais tenra idade convive com a nulidade do poder, da representatividade e da beleza africana, pois lhes ensinam a história do negro a partir da diáspora, como se essa raça existisse unicamente para a servidão e como escravos libertos, alheios à própria história.

Por essa razão, poetas marginais que têm recuperado as raízes culturais dessas pessoas por meio da pesquisa, da estética e do fazer poético nos temas, na linguagem ou na forma da poesia, como Luan Luando, Elizandra Souza, James Bantu e Thata Alves, para citar alguns, acolhendo um vocabulário ancestral na construção de formas negras mais vivas e simbólicas, as quais recuperam o ânimo de um povo esquecido e à deriva na própria vivência numa espécie de folclore alimentado pelo racismo da elite e ignorância dos seus iguais, alimentando o banzo presente em cada existência preta no Brasil.

Ademais, os meios de controle da população negra continuam muito ativos na figura do “capitão do mato” contemporâneo: a PM que, embora tenha abandonado a chibata, brande o cassetete a torto e a direito nas periferias do país; através do encarceramento em massa da juventude periférica no auge da sua força criativa e da sua potência de mudança, numa clara atitude de poda de um extrato da sociedade que sempre ameaçou a ordem vigente; e na oferta de Educação de baixa qualidade, o que impede essas pessoas de ascenderem economicamente. Os versos de Luan Luando são bons exemplos de como a deformação da história do negro no Brasil o torna um marginal na própria história:

Hoje temos policial.
a chibata não acabou e nem sumiu: evoluiu
[...]
A chibata está no cassetete
que priva o manifestante de exercer seu direito.
A chibata é o preconceito
entre os semelhantes.

A chibata é a deslizante ilusão da televisão
que quer que você a veja, só pra te entreter,
e esconder os abusos de quem está no poder.
[...]
(LUANDO, Luan. Manda busca)

Logo, a falta de conexão com as reais raízes africanas faz da criança negra, por exemplo, mero agente amplificador do esquecimento dessa cultura no Brasil, execrando as religiões ancestrais e demonizando a arte periférica original. Sobre isso Elizandra Souza poetizou:

Tecendo memórias

Ouço as minhas ancestrais:
Cantando, raiar os luares
Dançando, o sagrado costurar
Sorrindo, colher as flores

Retribuo:
Sonhando poesias,
Construindo melodias,
Recitando amanhãs

Flutuo na terra, piso no mar
Enfrento serpentes e armadilhas
Mergulho dentro de mim...

Atribuo a vocês, minhas ancestrais
Quem hoje sou eu, danço seus ritmos meus
Peneiro o deserto, encontro tesouros
Mesmo que besouros rondem meu lar
Pétalas finas e cheirosas
Rosas rubis a quem possa me interessar

Corro e percorro de sapatos vermelhos
Trilhas, trilhos, engrenagens
Roupas, arco-íris na vida cinza
Sozinha, ando sempre acompanhada
Ancestral minha que hoje sou eu.
(SOUZA, Elizandra. Águas da cabaça)

Esses são versos de verdadeiros representantes da poesia Pós-moderna brasileira, na qual há um alinhamento de diferentes tendências estéticas dos séculos XIX e XX, como o trabalho com a “palavara-pedra” à João Cabral de Melo Neto, a sugestividade branca do neossimbolismo em Cecília Meireles, ou a transgressão da sintaxe tal qual Mário de Andrade propôs e foi habilmente praticado por Clarice Lispector. Esses versos foram tecidos por mãos negras que não mais ficaram, nem ficam ou ficarão invizibilizadas, pois participam do cenário cultural vivo brasileiro, mãos habilidosas que contribuem para a mudança no paradigma de violência e comoção relegado à população das periferias do Brasil. Ademais, o negro ocupa seu lugar na história como protagonista do seu processo de libertação do cativeiro, como ser existente e possuidor de uma rica cultura muito anterior à presença do europeu no continente africano (erguendo civilizações, não como escravos, mas como soberanos, tal qual a egípcia), e não como vil aproveitador da escravidão fazendo fortuna às custas do sofrimento alheio (como o europeu sempre tentou ensinar na educação básica que o negro escravizou o negro).

Por fim, o opressor sabe que negar a história do oprimido é a forma mais eficaz de desumanizar uma categoria de pessoas sobre a qual se queira impor poder, mas a violência dos opressores também os desumaniza, visto que estes distorcem a realidade para tornar o oprimido um ser inferior a ele, mas, cedo ou tarde, aqueles que sempre foram impedidos de gozar de um estado de plenitude justa e humana, lutam contra quem os fez menos (FREIRE, 2012). Por isso que o papel restaurativo dos poetas periféricos é tão necessário no processo de reconquista da história do negro – na África – embora a perspectiva seja dos becos, vielas e morros do Brasil. Afinal, saber as próprias origens é a base para se lançar para um futuro vindouro.