terça-feira, 4 de setembro de 2018

A Literatura está fora da escola

As primeiras leituras de uma criança não são feitas no âmbito escolar, isto é, sob o crivo da academia ou sob  sua tutela, mas a chancela da escola, quando esse pequeno Ser inicia a educação formal, mitiga o desejo do jovem, sobretudo periférico, de desenvolver-se como leitor das relações humanas, visto que a literatura lhe é apresentada como mero instrumento de prova, imediatista e nada crítico, tornando-se uma atividade enfadonha, penosa e punitiva, pois a única finalidade que os professores lhe confere é como resolução de testes objetivos, cujas respostas estão prontas e não dialogam com a realidade do indivíduo Pós-moderno: que está imerso na fragmentação estilística dos novos tempos e perdido pela torrente de informações que lhe chegam pelos ágeis dispositivos celulares, os quais aceleram a sensação de que a vida é efêmera. Por isso, mais do que nunca – ainda que não perceba –, vive pelos prazeres imediatos.

Embora seja estranho afirmar que a literatura esteja fora da escola, visto que esta parece que sempre teve os direitos legais sobre os cânones da escrita, seja nacional seja estrangeira (se bem que esta última se tornou mais abrangente – contemplando, também, a angolana e a moçambicana – nos últimos cinco ou seis anos), não há erro nesta declaração, haja vista o aluno que não se interessa pelo estudo formal dos textos literários, é o mesmo jovem que lê nas músicas que ouve, nas redes sociais pelas quais se relaciona com seus iguais e nos Best sellers que devora, histórias em que haja identificação com seu íntimo, isto é, interessam-lhe mais do que um Machado ou uma Clarice. Além disso, as aulas de “leitura” são relegadas apenas a uma única disciplina, Língua portuguesa. Isso é mais do que errado, já que qualquer escritor(a), desde os tempos mais remotos da escrita, escreveu para relacionar-se com o mundo, ora confrontando-o ora compartilhando dos seus mistérios, a leitura é muito mais do que livros, o professor sabe disso, porém o seu aluno ainda não percebeu; e não percebeu porque nega a Literatura da escola, porque ela representa uma instituição na qual ele, o aluno, não se reconhece, não se identifica nem se sente representado.

A propósito, vale mencionar um trecho do poema “Cabernet Sauvignon”, de Jenyffer Nascimento para ressaltar o quanto a literatura está fora dos muros da escola:


Um dia você vai me convidar pra jantar
Na sua casa nova,
À mesa eu, você e sua esposa.
Abriremos um Merlot argentino
Brindaremos aos novos tempos,
À família, à felicidade!

Será uma conversa animada,
De sorrisos sinceros.
E quando não estivermos mais sóbrios
Virão à tona as lembranças
De um passado vulcânico,
Entre militância, sexo e liberdade.

[...]

Talvez sua esposa não goste do enredo da conversa
Dos signos expostos nas entrelinhas
[...]

Então mudaremos de assunto
Discutindo um tema pelego qualquer,
[...]

Eu serei sensata,
Direi que está tarde, que preciso ir.
O casal gentilmente me conduzirá até a porta
Dizendo pra voltar outras vezes,
Numa despedida fria, tipicamente paulistana.

Entre tudo que eu poderia dizer
E não disse...
Prefiro Cabernet Sauvignon chileno.

[...]


Esse poema é resultado das vivências de uma mulher que enxerga e reconhece as periferias de São Paulo e, de quebrada em quebrada, rompe os paradigmas de violência e comoção relegados ao povo preto paulistano; e esses versos, por serem mais próximos da realidade dos alunos, rompem com os limites gráficos podendo, até, fazer verter lágrimas do leitor, com o qual se identifica e espelha (semelhante às leituras feitas pelos jovens novecentistas brasileiros com ânsia de uma vida mais livre e mais subjetiva a fim de aliviar suas angústias como filhos de uma nação que ainda se descobria assim – numa visão burguesa, claro, pois a comparação é estritamente literária). Haja vista os saraus estão repletos de poetas jovens, talentosos e perseverantes no versejar das suas angústias, sonhos, conquistas e, sobretudo, suas rotinas. São esses mesmos jovens que refletem o fracasso da escola, embora nos Slams e demais batalhas de rimas demonstrem consciência e destreza por meio de versos ritmados, líricos, híbridos, por meio dos quais compartilham da visão de mundo que a escola, limitada, não compreende. Esse entrave enfraquece a literatura por pura falta de diálogo entre os envolvidos.

Todavia o primeiro cuidado ao se trabalhar com um texto legitimamente marginal (periférico) como o de Jenyffer Nascimento na escola é o de não esquadrinhá-lo, situando-o na pós-modernidade ou em qualquer outra época literária, pois afasta o aluno da necessária análise das relações sociais com as quais ele poderá se identificar; e que são tratadas de modo tão leve pela autora. Ademais, esse poema suscita questionar: o quão o meio social influencia a obra de arte?

A essa pergunta, Antonio Cândido dá a seguinte resposta:

Digamos que ela deve ser imediatamente completada por outra: qual a influência exercida pela obra de arte sobre o meio?

Dito de outra forma, ao se debruçar sobre textos de autores periféricos  cabe refletir sobre até que ponto a arte é uma forma de expressão da sociedade. Ademais, se a sociedade não se perceber como constituinte do escopo literário em análise, visto que as aulas de literatura unicamente descrevem (de modo unilateral) os elementos formais constituintes do texto para classificá-lo, a literatura só ficará mais afastada dos bancos escolares.

Por outro lado, os professores, no ensino médio – por exemplo –, julgam que seus alunos já sejam iniciados na leitura literária, e deveriam, desconsiderando o fato de que esses jovens não leem mais de meia página de um texto o qual, geralmente, é um fragmento usado para contextualizar exercícios de interpretação textual ou análise sintática. Até mesmo o estudo da poesia fica comprometido nesse cenário, pois a falta de prática na leitura torna o aluno incapaz de assimilar metáforas simples (as complexas são totalmente ignoradas). Esse pode ser o pensamento de um professor médio do ensino público brasileiro acreditando que o aluno deva se interessar pela leitura dos clássicos simplesmente porque estes são exigidos pelos concursos nacionais, sobretudo nos vestibulares das universidades mais concorridas do país.

Nos versos do poema “Juventude negra”, Akins Kintê passa a visão de como comungar a poesia é importante para o fortalecimento do ser e de tudo o que está a sua volta, e o que está à volta não está dentro da escola, não se apreende sentado num espaço que não lhe cabe. No entanto, esse poeta não chama o jovem a pegar em armas, tão pouco a militar, mas a libertar-se dos grilhões maquiados nas políticas que não lhe representam:

[...]
Juventude negra de atitude
estudando, é ficar ligeiro com a rota
que nos quer faz uma cota
depois é ir pra briga, lutar pela liberdade
o que fizemos por Serra da Barriga
o dobro façamos por nossa comunidade

Se não rola, relaxa marcha e siga
façamos de nosso coração
um quilombo uma nação
uma Serra da Barriga

Vale destacar que Kintê sugere a luta e aconselha o jovem para se libertar, mas sem que este tenha a obrigação de sacrificar-se por alguém a não ser por si próprio, visto que o sentimento de pertencimento é de dentro para fora, nunca o contrário. Isso a escola ainda não percebeu, por isso sofre com os números do Saeb, por exemplo, quando escancaram os parcos resultados dos alunos nos anos finais do ensino regular.

Por fim, Akins Kintê, Jenyffer Nascimento e tantos outros autores periféricos representam a literatura que está fora da escola, não por não ter suas poéticas estudadas e seladas pela Academia, mas por serem exemplos de que o trabalho da escola na formação do leitor literário não tem sido satisfatório, porque a juventude constantemente tem se mostrado resistente às aulas na mesma proporção que tem estado mais inclinada à arte fora delas.

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