domingo, 30 de setembro de 2018

A ótica literária no passeio pela cidade: diferentes visões, diferentes lugares de fala


Nascer periférico no Brasil é como ser a flor que rompe o asfalto, alguns negam que seja uma flor, que seja a flor-resistência e, embora não enxerguem as raízes, tentam arrancá-la, debalde, pois essas raízes são de além-mar. Então sufocam-na o mais que podem, mas tantas outras flores-resistência impedem essa ação exalando poderoso perfume pelos tímpanos, olhos e pele do algoz jardineiro, contornando a aspereza do débil senso de que a vida daquela flor tenha sido concebida ali, no asfalto, já que o opositor jardineiro não percebe mais do que sua insegura visão lhe permite. O perfume das flores-resistência é ancestral, suas raízes estão para além-tempo.

Nascer periférico, e negro, no Brasil e desconectado de tudo isso é doloroso, pois a mão do jardineiro pesa, é sentida até seus calos, mas o perfume das flores-resistência causam, outrossim, dor e febre, no corpo negro que precisa se restaurar.

Essa febre é acompanhada de convulsões porque o corpo se lembra da fragrância rejeitada por uma mente que ainda não saiu do cativeiro, e esse obstáculo é tão forte quanto o asfalto, e tão transponível quanto essa pedra cinza também.
É interessante como quebrar as barreiras sociais pode ser potencializado pela literatura periférica e tão parecido com uma flor que “rompe o asfalto”. No entanto, a perspectiva de Drummond e de tantos outros poetas que vivenciam as cidades de fora da periferia não contempla os vários olhares da favela, que trazem a dinâmica de pessoas as quais vivem na exclusão, mas encontram o lirismo para viver num mundo cínico em que a cena não lhes favorecem.

Por essa razão a importância de conhecer e consumir a literatura periférica, pois isso fortalece uma parte da sociedade invisibilizada por políticas públicas que estão na contramão do progresso social, visto que o estudo literário é necessário para a construção e reconhecimento do caráter de um povo e, embora os autores favelados não estejam na cena cultural midiática – cânone – essa cultura carece de apreciação para que, inclusive, o preconceito contra o operário diminua em obras por meio das quais sua vivência seja abordada artisticamente.

A literatura periférica resiste e reside além das fronteiras sociais impostas:

Amor periférico

No entanto
tinha tudo pra dá errado com pranto
se existisse música triste o canto
muito duro muito rude no pagode

Vê se pode
eu alado de angústia e sacode
meu romantismo “chamá-la no bigode”
escondendo a tristeza que me prende

Não se rende
ela no jeito de que entende
qualquer mágoa no peito ela defende
e teus olhos nos meus, uma dança

Onde trança
as ideias dos olhares; confiança
enxugar as tempestades pra bonança
o barraco transformar no Monte Olimpo

Onde garimpo
ofendendo o incrédulo e o ímpio
ternura da Divinéia ao campo limpo
o lado de cá não cadavérico

Esotérico
nem problemático nem bagunçado, nem histérico
mi casa é o termômetro periférico
nem triste nem pra baixo nem careta

O planeta
girando confuso em mim e na preta
era nós dois afastando da gente a treta
o coração no coração tudo dizia

A energia
junto era melhor como um só agia
não e truque de burguês essa magia
a gente se entende na lida

E lapida
a caminhada que foi tão dividida
nós fortalecemos nossa vida
alimentando no beijo o que fomos

E propomos
ser real nos poemas o que pomos
ser continuação do que somos
sem mentira só verdade a gente sabe

Que desabe
o mundo. E nós em nós se cabe
nos Cingapura, favela e Cohab
esmagando corrente e pelourinho

Com carinho
paciência e mãos dadas no caminho
da hora mesmo tá feliz, mesmo sozinho
porque logo mais o eterno encontro

Onde conto
pra esmagar frustração tamo pronto
é agora alegria esse ponto
pro bom da vida a gente acende o fulgor

Pelamô

(Akins Kintê) 

Esses versos de Akins Kintê são da sua obra “Muzimba: na humildade sem maldade”, livro de estreia desse poeta musical que, por meio do qual, apresenta os caminhos da sua poética transitória entre saraus, cortiços, becos e vielas das diferentes periferias da cidade de São Paulo; e esse poema demonstra bem que nem tudo na poesia periférica é enfrentamento – ao menos não direto. Ademais, os poemas líricos declamatórios também estão presentes na estética da periferia, visto que o amor também é um ato de resistência.

Claro que para entender o amor como uma força que está para além do sentimento e emoções dos amantes, isto é, um ato de resistência, que “esmaga frustrações e correntes” compartilhadas por ambos, num apogeu particular de sinergia no “eterno encontro”, e que afasta tudo de ruim que possa acometer esses indivíduos que amam, é preciso se colocar no lugar de fala desse eu lírico periférico, comum àqueles que dividem da mesma dor e dos mesmos artifícios de resiliência, por exemplo.

Os versos a seguir de Solano Trindade confirmam que o “amor periférico” simboliza o que há de mais caro no sentimento de pertencimento ao lugar e de cuidado de si e do entorno do cidadão das periferias, do operário das cidades, construtor invisível da máquina social, que o esmagaria sem dó, se não fossem os escritos de tantos autores seus iguais.

Baianinha

vatapá permanente
doce de coco
cafuné dendê
você veio na hora
quentinha
pra minha vida
trazendo o dengo
do que eu precisava.
Candomblé da minha madrugada
batendo em mim
que sou tambor creoulo
com patuá
envolvendo meu pescoço
com patuá
envolvendo meu pescoço
botando em minha boca
feitiço de Iansã.
Você veio agora
como a revolução de Cuba
me animar a vida
Você veio agora
como a libertação do Congo
me tocando pra frente
e fazendo esquecer
o tempo
e a velhice.

Você veio agora
fazer mutirão comigo…
(Solano Trindade)

Embora o amor não seja apenas um meio de sobreviver às agruras da vida, Solano Trindade o compreende como redenção, igual a alguns dos poetas renascentistas, por exemplo, Camões, o qual também considerava o amor como uma forma de rejubilo da existência:

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
(Camões)

Solano, no entanto, explicita um amor de um lugar de fala diferente daquele compartilhado pelos poetas clássicos, um lugar que sequer deveria existir, a favela – que não só existe, como também molesta a todos os seus moradores e, paradoxalmente é o ponto de mutação entre a resistência e a condescendência às políticas de embranquecimento do povo Brasil. Por outro lado, esses versos não são sobre o amor ou sobre a favela, mas sobre um indivíduo que se percebe no lugar de fala de quem ama numa região, porém trabalha noutra mais ao centro, onde mais tempo passa, dentro da mesma cidade, deixando o leito em outro extremo. 

Ademais, Mário de Andrade, poeta clássico, renomado e imortal do Brasil, também foi um aficionado da capital paulistana, e a vê de uma perspectiva diferente dos poetas periféricos:


Garoa do Meu São Paulo

Garoa do meu São Paulo,
-Timbre triste de martírios-
Um negro vem vindo, é branco!
Só bem perto fica negro,
Passa e torna a ficar branco.

Meu São Paulo da garoa,
-Londres das neblinas finas-
Um pobre vem vindo, é rico!
Só bem perto fica pobre,
Passa e torna a ficar rico.

Garoa do meu São Paulo,
-Costureira de malditos-
Vem um rico, vem um branco,
São sempre brancos e ricos...

Garoa, sai dos meus olhos.

(Mário de Andrade, Puliceia desvairada)  

A neblina, a garoa, vislumbrada pelo poeta da Pauliceia desvairada é um elemento que iguala a todos numa metrópole plural, mas também  que serve para esconder a iniquidade inerente a essa grande cidade e, talvez, essa percepção causava horror ao estudioso apaixonado por São Paulo e consciente da limitação da sua própria perspectiva de homem branco e de não morador de todas as São Paulos.

Embora Oswald de Andrade tenha dito que a massa se serviria do seu “biscoito fino”, este continua distante dos moradores do Jd.Ingá, do Pq. Arariba, da Vila Gilda, do Jd. Peri e de tantos outros bairros cujos parques lotam de crianças que mal leem a cartilha da escola. O “biscoito fino” de Oswald não chega porque seu distribuidor mantém o foco unicamente na região central, para a periferia chega apenas a fábrica e a fome.

Da mesma forma que os modernistas buscavam uma literatura nacional, a poesia periférica busca o caráter do seu povo, sem pretensão de generalizar o Brasil, e na medida em que a história é deturpada por aqueles que a manipulam para que ela dê a falsa ideia de democracia racial, muitos poetas negros e negras escancaram que não é bem assim:

Sociedade dos poetas vivos

Entre xenófobos e lobos bobos
a ingenuidade dos utópicos
não vai salvar florestas
as ruas dos esquecidos nos trópicos
parindo poetas,
você viu?
não dá uma coluna de jornal
em que caiba
o espelho da gente gourmet que não reflete as caras sertanejas
em que me enxergo
e os poetas do asfalto não serão resenhados por Antonio Candido
[...]

E os professores da língua
Portuguesa do Brasil
ainda pensam que ensinam
o emprego dos porquês
(Michele Santos, Toda vida,) 

A poesia de Michele Santos, poeta ambulante nas conduções da cidade de São Paulo, é um exemplo de que o estudo da literatura deve passar pelo crivo do estudo da sociedade, visto que o lugar de fala do poeta, isto é, sua ótica é muito importante para compreender a motivação do poema e sua importância como instrumento de reconhecimento. Afinal, as orientações sociológicas e psicológicas são importantes instrumentos para a interpretação do fato literário (Candido, 2011), mas não reduzem o poeta quando se entende que este transforma a realidade, não para explicá-la, mas para confrontá-la com a poesia que encontra nela.

Negro drama

Crime, futebol, música, caraio
Eu também não consegui fugir disso aí
Eu sou mais um
Forrest Gump é mato
Eu prefiro contar uma história real
Vou contar a minha

Daria um filme
Uma negra
E uma criança nos braços
Solitária na floresta
De concreto e aço

Veja
Olha outra vez
O rosto na multidão
A multidão é um monstro
Sem rosto e coração

Ei, São Paulo
Terra de arranha-céu
A garoa rasga a carne
É a Torre de Babel

Família brasileira
Dois contra o mundo
Mãe solteira
De um promissor
Vagabundo

(Racionais MC)

O drama do negro periférico em São Paulo é muito maior do que o próprio negro da periferia que, muitas vezes, tem dificuldade para se perceber, mas que não se parece com o mesmo da neblina que turvava o poeta Mário de Andrade. Isso é uma questão de ótica mesmo.

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