quinta-feira, 13 de setembro de 2018

O poder restaurativo da literatura periférica

Do terrorismo nos morros e vielas ao impedimento nas assembleias e passarelas, o negro é inviabilizado no Brasil por meio de políticas públicas que não favorecem a sua participação nas esferas de poder do país. Isso significa que sem representação também não há o reconhecimento da comunidade negra como atuante na história da formação da economia brasileira, não apenas do povo do Brasil, por conseguinte a autoestima desse contingente fica rasteira.

Essa realidade é sentida por todas as gerações que desde a mais tenra idade convive com a nulidade do poder, da representatividade e da beleza africana, pois lhes ensinam a história do negro a partir da diáspora, como se essa raça existisse unicamente para a servidão e como escravos libertos, alheios à própria história.

Por essa razão, poetas marginais que têm recuperado as raízes culturais dessas pessoas por meio da pesquisa, da estética e do fazer poético nos temas, na linguagem ou na forma da poesia, como Luan Luando, Elizandra Souza, James Bantu e Thata Alves, para citar alguns, acolhendo um vocabulário ancestral na construção de formas negras mais vivas e simbólicas, as quais recuperam o ânimo de um povo esquecido e à deriva na própria vivência numa espécie de folclore alimentado pelo racismo da elite e ignorância dos seus iguais, alimentando o banzo presente em cada existência preta no Brasil.

Ademais, os meios de controle da população negra continuam muito ativos na figura do “capitão do mato” contemporâneo: a PM que, embora tenha abandonado a chibata, brande o cassetete a torto e a direito nas periferias do país; através do encarceramento em massa da juventude periférica no auge da sua força criativa e da sua potência de mudança, numa clara atitude de poda de um extrato da sociedade que sempre ameaçou a ordem vigente; e na oferta de Educação de baixa qualidade, o que impede essas pessoas de ascenderem economicamente. Os versos de Luan Luando são bons exemplos de como a deformação da história do negro no Brasil o torna um marginal na própria história:

Hoje temos policial.
a chibata não acabou e nem sumiu: evoluiu
[...]
A chibata está no cassetete
que priva o manifestante de exercer seu direito.
A chibata é o preconceito
entre os semelhantes.

A chibata é a deslizante ilusão da televisão
que quer que você a veja, só pra te entreter,
e esconder os abusos de quem está no poder.
[...]
(LUANDO, Luan. Manda busca)

Logo, a falta de conexão com as reais raízes africanas faz da criança negra, por exemplo, mero agente amplificador do esquecimento dessa cultura no Brasil, execrando as religiões ancestrais e demonizando a arte periférica original. Sobre isso Elizandra Souza poetizou:

Tecendo memórias

Ouço as minhas ancestrais:
Cantando, raiar os luares
Dançando, o sagrado costurar
Sorrindo, colher as flores

Retribuo:
Sonhando poesias,
Construindo melodias,
Recitando amanhãs

Flutuo na terra, piso no mar
Enfrento serpentes e armadilhas
Mergulho dentro de mim...

Atribuo a vocês, minhas ancestrais
Quem hoje sou eu, danço seus ritmos meus
Peneiro o deserto, encontro tesouros
Mesmo que besouros rondem meu lar
Pétalas finas e cheirosas
Rosas rubis a quem possa me interessar

Corro e percorro de sapatos vermelhos
Trilhas, trilhos, engrenagens
Roupas, arco-íris na vida cinza
Sozinha, ando sempre acompanhada
Ancestral minha que hoje sou eu.
(SOUZA, Elizandra. Águas da cabaça)

Esses são versos de verdadeiros representantes da poesia Pós-moderna brasileira, na qual há um alinhamento de diferentes tendências estéticas dos séculos XIX e XX, como o trabalho com a “palavara-pedra” à João Cabral de Melo Neto, a sugestividade branca do neossimbolismo em Cecília Meireles, ou a transgressão da sintaxe tal qual Mário de Andrade propôs e foi habilmente praticado por Clarice Lispector. Esses versos foram tecidos por mãos negras que não mais ficaram, nem ficam ou ficarão invizibilizadas, pois participam do cenário cultural vivo brasileiro, mãos habilidosas que contribuem para a mudança no paradigma de violência e comoção relegado à população das periferias do Brasil. Ademais, o negro ocupa seu lugar na história como protagonista do seu processo de libertação do cativeiro, como ser existente e possuidor de uma rica cultura muito anterior à presença do europeu no continente africano (erguendo civilizações, não como escravos, mas como soberanos, tal qual a egípcia), e não como vil aproveitador da escravidão fazendo fortuna às custas do sofrimento alheio (como o europeu sempre tentou ensinar na educação básica que o negro escravizou o negro).

Por fim, o opressor sabe que negar a história do oprimido é a forma mais eficaz de desumanizar uma categoria de pessoas sobre a qual se queira impor poder, mas a violência dos opressores também os desumaniza, visto que estes distorcem a realidade para tornar o oprimido um ser inferior a ele, mas, cedo ou tarde, aqueles que sempre foram impedidos de gozar de um estado de plenitude justa e humana, lutam contra quem os fez menos (FREIRE, 2012). Por isso que o papel restaurativo dos poetas periféricos é tão necessário no processo de reconquista da história do negro – na África – embora a perspectiva seja dos becos, vielas e morros do Brasil. Afinal, saber as próprias origens é a base para se lançar para um futuro vindouro.

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