quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Sarau: um expediente a serviço da liberdade popular


“O sarau é o bocado mais delicioso que temos, de telhado abaixo. Em um sarau todo o mundo tem que fazer [...] no sarau não é essencial ter cabeça nem boca, porque, para alguns é regra, durante ele, pensar pelos pés e falar pelos olhos.

Inúmeros batéis conduziram da corte para a ilha senhoras e senhores, recomendáveis por caráter e qualidades; alegre, numerosa e escolhida sociedade enche a grande casa, que brilha e mostra em toda a parte borbulhar o prazer e o bom gosto”.
(MACEDO, Joaquim Manoel de. A moreninha)

Diferente desse sarau burguês em que pensar e falar é irrelevante, na periferia o sarau não é apenas um lugar, um “mic” ou um evento social onde os participantes estão ali “de rolê”. O sarau é um importante instrumento de resistência da cultura popular periférica, organizado e compartilhado pelo operário que, por algumas horas, comunga a poesia entre os seus pares.

Esse expediente é o legítimo lugar de fala do artista popular, sobretudo poetas, preocupado em fazer da sua arte um meio de combate contra a vilania dos maus patrões, das políticas abusivas e da alienação do povo pobre subjugado por uma elite escravocrata que centralizou a cultura, afastando-a da periferia. Por isso os saraus entre becos, vielas, praças e bares têm sido os legítimos espaços de democratização da literatura.

O poeta Sérgio Vaz, um dos fundadores de um dos mais importantes saraus da zona sul paulistana, em entrevista para a TVT mencionou que  por estar abandonada, sobrou apenas os alunos e os professores na escola, e esses últimos levaram a rua para dentro dela a fim de que todos fossem resgatados, inclusive eles próprios. O “levar a rua” é exatamente apresentar para a juventude pobre a força dos saraus de periferia, essa sociedade de poetas vivos que dialoga Com eles.

Por essa razão que figuras como Vaz, Jefferson Santana, Jaime “Diko” Lopes (fundador do Verso em versos), Thata Alves (fundadora do sarau da ponte pra cá) e tantos outros articuladores culturais são importantes para a literatura brasileira e para a cultura periférica e, justamente por fomentarem o consumo e a produção da legítima arte do Brasil, são comparáveis aos idealizadores da Semana de arte moderna de 1922 ou da Tropicália da década de 1970. No entanto, a cultura da favela não precisa desses rótulos porque ela é o mundo manifesto no traço do verso martelado na condução, na pausa para o almoço, na fila do banco, entre uma faxina e outra ou durante o sarau mesmo.

O sarau acontece à noite, pois é no apagar das luzes “do serviço” que as pessoas se reunem para fazer poesia e, ao menos uma vez por semana, compartilhar versos, discursos e sonhos com aqueles cuja força motriz é a poesia, é a literatura marginal periférica que traduz o seu interior.

Ademais, a literatura marginal ensinada nas escolas brasileiras não contempla a arte da periferia, sequer a considera uma expressão legítima da arte. Todavia a potência da literatura popular estimula os professores mais engajados a levá-la consigo para dentro da sala de aula. Assim, o aluno passa a compreender que a literatura marginal periférica não é apenas uma forma artística, mas uma expressão da resiliência de um povo que já produzia literatura muito antes de saber que aquilo que faziam fosse arte.

Por conseguinte, muitos escritores periféricos retornaram à sala de aula para aprender mais sobre si mesmos e sobre como resgatar a identidade na sua “quebrada”, visto que, além de apresentar a literatura para seu povo, o sarau também pode formá-lo de maneira crítica e engajada para que perceba a importância de caminhar junto com o “artista cidadão”, isto é, o artista sem mídia e que não é menor por isso.

Atualmente há saraus nos mais variados formatos, até mesmo itinerantes como os Poetas ambulantes, que têm levado a experiência da literatura para dentro das conduções diárias onde estão os trabalhadores que não podem frequentar o sarau em seu espaço físico. Entretanto, há quem diga que o sarau tenha perdido sua essência pela profusão de grupos que têm surgido nos últimos anos dispostos a realizar esse trabalho de fomento da cultura periférica justamente por não darem espaço ao livro, isto é, ao texto escrito, motivo pelo qual a literatura é tão importante como catalisadora das potencialidades do indivíduo, sobretudo em condições de vulnerabilidade social.

Muitos saraus acontecem no “buteco”, ponto de encontro histórico do trabalhador que o tem como um lugar de alívio pós-expediente – o “Happy hour” –, que foi ressignificado pela poesia, tornando-se, se já não era, o centro cultural da periferia. Sobre isso afirma Antonio Cândido (2011) 

A literatura é coletiva, na medida em que requer uma certa comunhão de meios expressivos (a palavra, a imagem), e mobiliza afinidades profundas que congregam os homens de um lugar e de um momento, para chegar a uma “comunicação”.

Nas palavras desse célebre professor, o espaço literário comum aos membros de um grupo social corrobora para que a comunhão entre eles eleve o seu nível de humanidade de tal modo que fortalece os laços afetivos dessa comunidade, sobretudo o sentimento de pertencimento ao lugar que aos poucos tem se incluído na cena cultural brasileira. Isso agrega significativo valor à juventude periférica.

Michèle Petit (2008), antropóloga francesa, conviveu muito tempo com os jovens marginalizados de grandes cidades francesas para confirmar o poder elucidatório, redentor e modificador da leitura nos jovens:

Para a grande maioria dos jovens dos bairros marginalizados, o saber é o que lhes dá apoio em seu percurso escolar e lhes permite constituir um capital cultural graças ao qual terão um pouco mais de oportunidade [...]

Petit também evoca o fato de que a leitura permite ao jovem a apropriação de um uso mais competente da língua, pois, muitas vezes, a falta disso representa um entrave social para ele. O sarau, portanto, desafia o indivíduo a superar sua limitação linguística para transpor as limitações que possa encontrar na linguagem.

Por fim, graças aos saraus a literatura periférica tem conquistado mais espaço no cenário literário nacional como uma arte legitimamente marginal, do povo, de luta e de resistência. E ainda há quem os chamem de quilombos culturais.

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