Transformação

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Entrevista com poetas

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Poemas | 1913-1956 - Bertolt Brecht

Uma literatura, seja de qual gênero for, é uma biografia, ainda que indireta, de seu autor e/ou tempo. Mas também pode ser atemporal, caso fale de anseios e frustrações pertinentes a qualquer época ou de questões da natureza humana.

Poemas 1913-1956, de Bertolt Brecht (Editora 34, 2012), é as duas coisas: é biográfico, porque o autor conta parte de sua trajetória ao mesmo tempo que fala sobre a ascensão do nazismo na Alemanha, e é atemporal, porque trata de questões que tocam a quase todos nós, mesmo quase cem anos depois.

O livro tem menos de um quarto dos poemas escritos por Brecht, que, além de poeta, foi um dos mais importantes dramaturgos do século XX. Paulo César de Souza, quem traduziu e selecionou os textos, diz que a seleção levou em consideração beleza e representatividade da obra geral, mas que a “traduzibilidade” foi elemento indispensável. Quer dizer: ele considerou se o texto mantinha sua ideia original depois de traduzida. Esse é um ponto em todas as traduções. Às vezes um texto só faz sentido em sua língua original, porque carrega histórias e sentidos regionais, questões singulares daquela cultura.

Poemas tem oito divisões temporais, feitas de acordo com a trajetória de Brecht. Em todas elas o poeta fala sobre a vida comum: os laços humanos, um dia bom ou ruim, o amor romântico, relação de pais e filhos, a natureza e suas manifestações; mas também sobre a sua causa: a luta social foi norteadora de seus trabalhos escritos. Há homenagem aos trabalhadores; saudações e críticas à esquerda, poemas sobre organização coletiva, responsabilidades individuais na luta, a ascensão do nazismo e a retórica inflamada e vazia do pintor, como ele chamava Hitler, e seus aliados (lembra alguém?).

Há muitos poemas que tratam do que foi sua principal fonte de vida e luta: o teatro. Brecht fala sobre a construção de uma peça, de como considerava importante fazer seus espetáculos para e junto do público, para que não fosse uma arte vazia. Há homenagens a atores; atrizes; colaboradores das peças; companheiros e companheiras de vida, enfim, gente com quem ele construiu a trajetória na junção da arte com a luta.

Nomes como Rosa Luxemburgo, Walter Benjamim, Máximo Gorki e Vladimir Lenin são eternizados pelo poeta. Ele nos conta ainda sobre sua vida no exílio provocado pelo nazismo, sobre lugares e pessoas que conheceu e sobre o sentimento de estar longe de casa.

É um livro denso, com muitas referências, um relato direto de quem viveu e se sensibilizou com um tempo nebuloso. São aulas sobre história política e sobre a construção de um dos teatros mais importantes do último século; tudo isso em versos, quase todos livres. Uma leitura que vale cada minuto que nos dedicamos.

O mais impressionante dessa seleção é como ela fala com nosso tempo. Alguns poemas parecem pensados para os protofascistas com quem temos lidado nos últimos meses.

Ouvi dizer uma vez que há estudiosos que não aprovam traduções literárias de qualquer gênero, ainda mais de poemas, porque a proposta original acaba sendo perdida. Em parte é possível que isso aconteça, como já comentado. Há textos que possuem referências muito específicas e cujo sentido completo está na língua original, mas não parece o caso desta seleção. Pode até ser que ler “Lista de preferência de Orge” (p. 48), “A despedida” (p. 137) ou “O cordão partido” (p. 142), três dos textos mais tocantes que já li na minha vida, em suas versões originais seja uma experiência maior. Mas, enquanto não aprendemos alemão, ficamos com o português. Perdemos por um lado, mas ganhamos por outro. Ganhamos principalmente por saber que arte e luta andam juntas desde muito, que compartilhamos sentimentos com um dos maiores escritores do século XX, que a resistência antifascista é antiga e que ela não foi derrotada, nem apagada no passado. E também não o será agora.

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