Transformação

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Entrevista com poetas

terça-feira, 17 de setembro de 2019

Poemas da recordação e outros movimentos - Conceição Evaristo

Como você define poema? A palavra mesmo. O conceito. Define como o que é belo? Mesmo quando a/o poeta fala de dor? Não me parece razoável. Seria a tradução lírica do mundo? Mas isso pode ser a definição de qualquer literatura mais subjetiva, não?

Às vezes a gente tem essa necessidade de colocar tudo numa caixinha, talvez pra ter a sensação de que entende e controla o mundo. Ao ler Poemas da recordação e outros movimentos (Malê, 2007), de Conceição Evaristo, eu quis definir e dizer: é isto, e por isso vocês devem lê-lo.

Então, eu tentei comparar com aqueles poemas que conheci na escola. Textos em que as professoras falavam sobre métrica, versos com formas x, y, z, assim e assado, poemas de contemplação, sobre a mulher poetisa/musa, sobre pobreza vista de fora, sobre como a vida e a cidade são selvagens e engolem as pessoas, não as pessoas que escreviam, outras pessoas. Mas não, não é ai que eu o encontro. Este é um livro sobre trajetórias, individuais e coletivas, em primeira pessoa.

Aí eu lembrei das e dos poetas que me fizeram amar poesia. Gente dos saraus e slams em bares, praças, terminais de ônibus, confrarias orgânicas nas bordas da cidade. Do poema escrito, mas principalmente oral, dito. Gente que te leva pra dançar enquanto declama, que traz ancestralidade, mas com o fôlego de ter nascido ontem. É. Poemas é tudo isso, mas não só.

É uma publicação que propõe um diálogo entre passado e presente, e aí está o que o faz indispensável. A autora constrói uma ponte entre dois tempos, e por isso, ao mesmo tempo que seus versos me soaram novos, senti familiaridade ao ler. É que eu já tinha visto e ouvido sua escrevivência nas e nos poetas da minha geração. Pergunte a eles e elas quem os inspira, e certamente Evaristo será citada. Em Poemas da recordação você poderá sentir e ver parte da poesia, no seu sentido mais amplo, que inspira e impulsiona toda uma nova geração de escritoras e escritores pretos e/ou periféricos.

As metáforas usadas por Evaristo cortam suave, mas profundo:

"E depois, sempre dilacerada,
a menina expulsou de si
uma boneca ensanguentada
que afundou num banheiro
público qualquer." (p. 50)

Não nos deixam esquecer que a dor tem historicidade:

"As certidões de óbito, os antigos sabem,
veio lavrada desde os negreiros." (p. 17)

Mas dão fôlego pra continuar apesar de:

"E se cai, nunca se perdem
os seus sonhos esparramados
adubam a vida, multiplicam
são motivos de viagem" (p. 60)

Foto: Richner Allan

O livro tem seis divisões com pequenas introduções em prosa-poesia seguidos de poemas sobre o tempo, ancestralidade, ser mulher negra, maternidade, afeto, fé, escrita. Versos atentos sobre o cotidiano minúsculo, mas também sobre a macro história que nos trouxe até aqui.

Evaristo tem uma longa trajetória e vasta  publicação de suma importância. São romances, estudos e antologias, mas esta é a primeira publicação individual com poemas, originalmente de 2003.

A maioria de seus versos estão nos Cadernos Negros, do coletivo Quilombhoje, importante instrumento de divulgação e fortalecimento da escrita negra no Brasil desde a década de 1970.

Poemas da recordação e outros movimentos é um livro curto, mas intenso e por isso é preciso tempo e atenção para lê-lo. Os temas que o atravessam estão no nosso dia a dia, mas o olhar experiente e primoroso de Evaristo nos leva pra ver mais de perto, nos movimenta e causa inquietação, mexe em feridas fundas ao mesmo tempo que te convence a continuar.

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