segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Transformação com Peu Pereira

Como a poesia surgiu na sua vida?
Tenho um irmão que sempre leu muito, o Iuri Pereira. E tinha alguns livros de poesia e também ouvia umas músicas “diferentes”. Na década de noventa na zona sul de São Paulo, no Parque Santo Antônio, ouvia-se sobretudo Racionais e os pagodes noventistas. “O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade?”…
E uma vez ele tava escutando uma musica do Secos e Molhados e as palavras da letra da música nunca mais saíram de mim: “Se eles têm três carros, eu posso voar”.

Como você era antes da poesia?
Eu trabalhava como camelô e tinha que ir do parque Santo Antônio até o túnel Nove de Julho. Eram umas três horas de ônibus por dia, então eu precisava fazer alguma coisa enquanto estava ali. Ainda bem que não tinha celular nessa época. Nesse trajeto de ida e volta li muitos livros. Lembro do primeiro que li, foi um do Sidney Sheldon sobre umas enfermeiras, lembro muito pouco da história. Depois li bons livros como Olhai os lírios do campo, do Érico Veríssimo, Agosto, do Rubem Fonseca, a parte do inferno da Divina Comédia, o Poderoso Chefão… Li uma porrada de livros até que apareceu um do Manoel Bandeira. E gostei de mais. Depois fui aprendendo a identificar os tipos de leituras que mais me agradavam pra poder estar sempre lendo.

Quem você é depois dela?
Leio muita gente do movimento de Literatura da Periferia como de outros lugares do mundo também. Gente viva e gente morta. conheci muito gente depois dos saraus da Coopera e do Binho. Acho que ler é o que mais importa, mais do que escrever até. Porque quando lemos tiramos um tempo para nós mesmo. Para pensar, imaginar e refletir o mundo e a vida. E afinal é isso que importa. Ter os seus momentos, sentir sua singularidade nesse universo, refletir o tempo e a existência. Como surgimos? Eis o maior mistério. 

Poema

As valentias do mundo

O que tem faltado pra gente?
Usamos drogas pra sentir o amor
Para tocar na pele e olhar nos olhos
Já não conquistamos sensações
Com nossos próprios corpos
O que nos tem faltado?
Somos a juventude e gostamos
Mais de ácido e cocaína
Do que de política e rock and roll
Do sexo sabemos apenas penetrar 
Desaprendemos sentir os poros
Rompendo em milhares de fissuras
Transfundindo todos os sangues
Gostamos mais dos nossos carros
Do que do pau duro
O que será mais falso?
Nós usamos as drogas
E nossos pais não vão morrer de overdose
Vão morrer de trabalhar e só.
Todos os poemas bonitos
Não valem uma pedra contra o sistema.
Fim da conversa no bate-papo
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