segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Transformação com Victor Rodrigues

Como a poesia surgiu na sua vida?
Ela surgiu como uma rota de fuga. Ou um plano de vingança. E uma questão de sobrevivência. Eu cresci quieto e meio perdido, sem ver muito sentido nas coisas que me eram apresentadas. Fiz um monte de curso profissionalizante, trabalhava, fazia faculdade pra poder ser promovido. Seguia a cartilha da ascensão social à risca. Mas tava ficando doente. Aquilo era muito pouco e cruel. A vontade de viver ia acabando. Aí a poesia virou refúgio. Mas apareceu bem no susto. Eu não tinha esse contato tão claro com ela quando era mais novo, nem de ler nem de escrever. Foi rolando a partir duns 19 anos mais ou menos, quando eu já não aguentava mais mesmo e precisava por pra fora. Aí um mundo se abriu e eu me apeguei a ela como o que me restava.

Como você era antes da poesia?
Bastante quieto e deslocado. Não me via em lugar nenhum, me colocava pouco, só observava. Rolou muita coisa na minha vida que me fez ficar escondido pra dentro. Doenças, tretas, crises. Da morte do pai à relação com a mãe, da depressão ao marcapasso. Esse mundo não servia, desde cedo eu sentia que tinha alguma coisa errada.

Quem você é depois dela?
A poesia trouxe um negócio esquisito com a vida. De perder o medo de correr o risco. De se ver na palavra e nos outros que ela carrega. Continuo perdido, deslocado e vendo muita merda no mundo. Mas agora não tão sozinho. Tem a palavra pra acompanhar sempre. E essa necessidade de inventar mundos no texto. De sair de dentro e exercitar minha fragilidade. De se encontrar na sensibilidade das coisas. Às vezes só faz aumentar a carga de coisa pra carregar, mas às vezes alivia. Foi uma escolha de viver a vida, construindo junto.

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