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Transformação

Transformação
Entrevista com poetas

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

O movimento da periferia traduzido em palavras

A periferia sempre esteve em movimento desde a invenção do Brasil, fosse pelos povos originários mantendo viva sua tradição por meio dos cânticos, dos rituais, das pinturas, das histórias e das estórias, fosse pela inserção do africano juntando-se à resistência dos índios brasileiros através da musicalidade dos atabaques e da representatividade da religião dos orixás, fosse também pelo europeu excluído no processo civilizatório brasileiro, mas acolhido pelo território que muitas vezes ele também negou. Essas pessoas fizeram coro para que a sua participação na construção do país e sua ancestralidade fossem preservadas. Assim surgiu a cultura da periferia, um amálgama de saberes ancestrais voltado para o futuro dos seus descendentes, cujo convívio entre eles é conflitante, mas também muito rico e paradoxal.

Esse território é uma potência que, hoje, começa a ser explorada pelos seus próprios moradores, o que diz muito sobre a literatura oriunda desse lugar. Thata Alves, nos versos abaixo, assim o apresenta:


Pira

inspira

Respira


Deixa na mira

Todo traíra

Que prometeu um dia

Trazer alegria constante

Em nossa periferia


Atira

Com eloquência ou com gíria

Nessas falsas promessas

Nessas mentiras

Proclame palavra que se sinta


De forma íntima

A agonia desse povo

Que se inclina

Diante de tanta hipocrisia

Dessas falsas filosofias

Falsas histórias

Que a frágil educação na escola ensina

Essas falsa beleza exposta na mídia

E quando tudo for chacina

Quando se revoltar um dia

Por não ter alcançado o topo da colina

Por ver seu povo largado na esquina


Pira

Respira

Inspira


E se dirija ao mágico sarau do Pira

Experiência de vida!

(Thata Alves, 2015)


Pira é o apelido dado pelos moradores ao Bairro do Piraporinha, no extremo sul da cidade de São Paulo, onde ocorrem eventos culturais tanto na Casa de Cultura quanto na praça – ícones daquele lugar –, aos quais a poetisa alude ao se referir à experiência de se frequentar o “mágico” sarau daquele lugar, que é a cura das angústias da vida e edificação do indivíduo diante das poucas políticas públicas para o desenvolvimento da região para além das vagas promessas de políticos oportunistas. Ademais, nesse poema notam-se os verbos de ação “deixa, atira, proclame, pira, inspira, respira e dirija” no imperativo para colocar o leitor em sintonia com a proposta do Eu lírico de reclamar o espaço público para si e para os seus, ao mesmo tempo em que se cura da própria angústia devido à imersão num sistema falacioso de meritocracia, existente apenas para negar ao cidadão periférico o direito de viver num espaço pleno, saudável e bem estruturado, porém para que isso aconteça o leitor precisa “deixar na mira” o seu direito e dever cívico de cobrar políticas públicas para o seu próprio território, isto é, o Eu lírico desperta o leitor incauto para uma atitude menos passiva diante dos seus direitos e deveres como cidadão.

Lélia Gonzalez, sobre a questão da distribuição dos territórios, postulou que os espaços no Brasil são racializados, visto que o lugar do negro é limitado ao cubículo insalubre e amontoado nas bordas das cidades e, como se não bastasse a precariedade desse lugar, ainda é constantemente vigiado e oprimido pela força policial do Estado, enquanto o espaço do branco é amplo e irrestrito e, mesmo que em condomínios fechados com segurança privada, esse contingente não negro habita as regiões centrais das cidades, que são mais planejadas e possuem amplo acesso à infraestrutura fornecida pelo Estado, o qual não está presente para reprimir, mas para garantir a segurança e permanência desse território. O que Gonzalez, pesquisadora e cofundadora do MNU (Movimento Negro Unificado), apontava no início dos anos 1980 era que o plano de integração da população negra no Brasil sempre foi para que ela ocupasse o lugar da servidão, da falta e da exclusão através de moradia e trabalho precarizados. No entanto, a Literatura que emana do movimento das periferias reivindica o contrário, que o desenvolvimento desse espaço acontece devido ao movimento das lutas populares, inclusive por meio das palavras. E com licença ao poeta, não é uma luta vã, não tem sido.


MOVIMENTO NEGRO: um aparte

Antes de haver um movimento negro, sobretudo unificado, existiam organizações populares que movimentavam a periferia numa participação intensa na vida cultural brasileira: agremiações carnavalescas, terreiros de religiões afro e muitas frentes negras espalhadas pelo país. Essas entidades eram como quilombos para o negro, e para todos na periferia, se proteger e se desenvolver num Brasil que tem se apresentado a ele como um Estado violentamente racista.

Os versos a seguir do rapper Dugueto Shabazz evidenciam o movimento que recusa um Brasil aberto à periferia apenas para que ela sirva como mão de obra barata e aviltada para aqueles que manobram a política a fim de inviabilizar a vida dos mais pobres.


Vamos pra Palmares


Depois que a noite cair e a treva dominar

O cagueta dormir e o sentinela passar

Eu vou de novo fingir quando silêncio reinar

Aí vou sorrir quando o candeeiro apagar


Trincar por cima do pano para a corrente quebrar

Desmuquifar o aço faca de cortar jugular

Arrebentar os grilhão pro meu sangue circular

Chamar os nego irmão forte pra capoeirar


Vamos rezar um duá depois do salat al ichá

Guardar palavra de Allah amarrar no patuá

Uma estrela e o crescente para nos guiar

Vamos sentido oriente que eu conheço um lugar


Aonde não tem sinhô aonde não tem sinhá

E o nego pode comê o que o nego plantar

Onde morrer é melhor viver pra paz é lutar

'Conteça o que acontecer nóiz tamo indo pra lá



Mesmo que eu tenha que cruzar terras e mares

Eu vou pra Palmares, Eu vou pra Palmares

Mesmo que no caminho me sangrem os calcanhares

Eu vou pra Palmares, Eu vou pra Palmares

Mesmo que os inimigos contra nós sejam milhares

Eu vou pra Palmares, Eu vou pra Palmares

Enfrento os Borba Gato e os Raposo Tavares

Eu vou pra Palmares, Eu vou pra Palmares…

[...]


E que meu sangue regue o solo de nossos lares

Pois todos quilombolas são nossos familiares


Indios e foras da lei renegados e populares

Mal quistos e mal vistos vindos de vários lugares

Você não tá sozinho por que nós somos seus pares

No levante contra bandeirantes militares

[...]

(Dugueto Shabazz)


Claramente a referência dessa letra é o quilombo dos Palmares (1595 - 1695), primeira e única organização popular que visou estruturar a sociedade brasileira, pois, ao invés do que muitos negacionistas pensam, em Palmares houve o convívio democrático entre negros e não negros, que faziam valer a soberania daquele local, ainda que mantendo comércio (não de escravizados, obviamente) com seus vizinhos. E por esse quilombo ter sido um lugar de pessoas livres, celebra-se hoje, no Brasil, a vida e a luta dos “palmarenses” liderados por Zumbi – último, não único, grande líder daquela comunidade –, não o dia da assinatura do documento o qual virtualmente deu a liberdade ao povo negro brasileiro.

Por isso que “Vamos pra palmares” representa um convite ao enfrentamento da seletividade da história do Brasil oficial, como cunhou Machado de Assis na coluna assinada por ele no Diário do Rio de Janeiro em dezembro de 1861. E nesses versos, como em grande parte da produção periférica, os coloquialismos servem para simular a espontaneidade da fala do português brasileiro, aproximando leitor e Eu lírico, desde um desvio de regência “Aonde não tem sinhô aonde não tem sinhá” a uma falta de concordância “Arrebentar os grilhão.../Chamar os nego irmão”, muito comum mesmo entre pessoas com níveis elevados de escolaridade, diga-se de passagem, porque esses recursos validam a sintaxe do povo, àquele que Manuel Bandeira apontava como quem “fala gostoso o português do Brasil”.

Ademais, ao invocar a figura de Allah, Dugueto faz referência ao sagrado que protege esse negro que, embora sequestrado para servir, negou ser mercadoria em terra estranha, o que contribui para que o leitor possa vislumbrar a apreensão desses cativos antes dos eventos funestos que a fuga deles inevitavelmente desencadearia. Por outro lado, toda a tensão instaurada ao longo dessa narração é catarseada pelas estruturas concessivas no estribilho “Mesmo que eu tenha que cruzar terras e mares/Eu vou pra Palmares” o qual, ainda que em primeira pessoa, sintetiza as vozes plurais e dispostas a sacrificar as próprias vidas para preservar o direito à liberdade, reconhecendo-a como uma conquista coletiva: “E que meu sangue regue o solo de nossos lares/Pois todos quilombolas são nossos familiares”. Por conseguinte, ir para Palmares, hoje, é o movimento natural em busca de uma vida livre e plena “sem sinhô nem sinhá”. “Vamos pra Palmares” não é uma “Pasárgada”, não é fuga, mas um aquilombamento.

Poetas, poetizas, rappers e romancistas da marginalidade literária como Dugueto veem em Maria Firmina dos Reis, Conceição Evaristo, Maria Carolina de Jesus, Cuti e Solano Trindade, para citar os mais conhecidos, a vanguarda desse movimento literário, já que esses autores e essas autoras enfrentaram o racismo e a exclusão por meio de uma estética da resistência.


Operação pente fino


muitos cortaram careca

escorregaram na gosma de inúmeros alisantes

ou se acariciaram com ferro em brasa sobre o couro cabeludo


outros até à nuca

desesperados se cobriram

com as cavalares perucas


e não adiantou nada

por mais lucro havido

na indústria de cosmético


jamais o racismo

mesmo com seu riso químico

será ético


neste comércio

nutre-se da inferiorização constante e seu complexo.

(Cuti)


A reflexão proposta pelo Eu lírico nesse poema de Cuti é compartilhada pelos muitos moradores das periferias que têm sua autoimagem aviltada por padrões impostos para humilhá-los e mantê-los inertes da sua própria herança cultural: o pixaim, o alisado, o assanhado, o trançado, enfim, todos os estilos cabem numa cabeça bem feita na querença de uma Sanga negra.

Assim, a literatura de quebrada, livre na forma e nas ideias, representa um contraponto à Literatura única impressa nos manuais pela Academia que valida o que é e o que não é Literatura, da mesma forma como os autores nordestinos e riograndenses se levantaram contra a noção reducionista de Brasil nos escritos dos autores da “Semana de 22”. Além disso, a literatura dos “becos e vielas” é a crônica dos movimentos populares os quais moldaram a sociedade brasileira, visto que “o negro permaneceu sempre condenado a um mundo que não se organizou para tratá-lo como ser humano e como igual”, nas palavras de Abdias do Nascimento.

Portanto, a estética da periferia é um movimento literário que não glamouriza a favela ou a exclusão social na qual as pessoas desse território vivem. Além disso, ela representa um ponto de mutação ou de ruptura da inércia e da negligência da Academia para com uma literatura tão autêntica como é a literatura das periferias.

Se vidas negras importam, deve-se ficar mais atento aos movimentos culturais das periferias.


Referências

Abdias do Nascimento, Genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado, 1978.

Cuti, Sanga. 2002.

Dugueto Shabazz, Zumbi Somos Nós - Diáspora Afronética, 2020.

 Lélia Gonzalez, Lugar de negro, 1982.

Thata Alves, Em reticências, 2015.


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