terça-feira, 28 de agosto de 2018

A “Quebrada” é um espaço para o exercício da tolerância religiosa

Embora seja negado pelas camadas mais conservadoras da sociedade, a periferia é o espaço mais plural e tolerante das cidades. A razão para isso não é o convívio amigável entre os “direrentes”, mas o compartilhamento forçado dos espaços públicos por àqueles que, sem opção, ocupam os loteamentos precários nos extremos das metrópoles brasileiras.


Em São Paulo, por exemplo, desde meados dos anos 1970 os operários do país têm se aglomerado nas construções rudimentares sem reboco nem asfalto; sem saneamento básico ou eletricidade, afim de alimentar seus sonhos e filhos. No entanto, esse Brasil permaneceu por muito tempo à margem das pautas públicas de fomento à cultura, educação e lazer, isto é, políticas favoráveis ao pleno desenvolvimento do indivíduo e do cidadão, ainda que na “quebrada”. Por isso que a Periferia teve de encontrar formas de autopromover-se para sair do paradigma de abandono e exclusão no qual estava inserida desde a sua fundação. Então as igrejas evangélicas e os terreiros se tornaram verdadeiros espaços de discussão política e social, além de organização cidadã, já que ninguém mais se propôs a dialogar sobre esses assuntos tão fundamentais para a inserção do pobre na gestão da cidade.
Além dos espaços para cultos religiosos, os bares também possuem grande destaque na formação da periferia, porém merecem um artigo apenas sobre eles devido ao tamanho do seu alcance e importância no sustento e crescimento dos bairros periféricos da capital paulista.
O impacto positivo gerado na favela pela vontade de acomodar a todos favorece a integração entre pessoas cujas crenças são diversas. Assim,  seja tirando terra para aplainar o terreno seja batendo a laje que protegerá os sonhos da casa conquistada a duras penas, os indivíduos se organizam solidariamente, da porta para fora e da porta para dentro. A recompensa é o sorriso, o churrasco na laje, o amigo, a família que passa a ter um CEP (tão importante para viver com dignidade em São Paulo). A Periferia tem dessas coisas...

Por outro lado, recentemente houve certa desconexão da periferia consigo mesma desde a ascensão da tal “nova classe média” sem consciência de classe ou de lugar de fala ataca as minorias sociais às quais não se percebe pertencente, como tem atacado os terreiros dos povos originais e as religiões de matriz africana ( seus cultos, trajes e cabelos, ou seja, sua cultura). Isso talvez seja o efeito do baile que a favela tem levado da política especulatória dos noticiários inflamados que exaure as energias do brasileiro periférico.

No entanto, a produção de articuladores culturais da periferia tem resgatado a coletividade inata do ser humano por meio de ações que promovem uma reconexão com os diferentes agentes que compõem a “quebrada” paulistana num processo de reconstrução da ancestralidade, inclusive, da própria periferia, a qual se consolidou como um espaço de crescimento solidário e positivo no enfrentamento da isenção do poder público e dos malefícios do crime.

Por essa razão que as favelas, hoje, representam um excelente lugar para se discutir e propor reflexão sobre tolerância religiosa, porque no comungar do espaço, das agruras e dos sonhos dos munícipes periféricos é que se encontra um lugar comum, mesmo que ainda haja um forte ressentimento da favela como lugar transitório, logo, pouco cuidado.

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