quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Crônica de quinta: Acabou a luz

Acabou a luz! Esta é a constatação geral quando o breu toma conta do horário nobre da vida paulistana e enquanto meus filhos contemplam a TV inoperante 


Eu aparo as vacilantes águas que inconvenientemente invadem a casa pelas frestas abertas no laranja dos blocos pobremente assentados e negligentemente sem reboco.

Acabados os baldes, utensílios da cozinha, como um vasilhame que outrora comportou o sorvete napolitano tão apreciado pela família, aparavam a água. Vez ou outra eu, em grande torcida, manuseava os interruptores na esperança de prontamente a luz voltar, debalde.

Frustrado eu mandava as crianças desconectarem a televisão da tomada. "Mas como saberemos que a luz voltou?" Indignadas retrucavam.

Realmente, a luz naquele momento era mais importante do que a água que invadia os cômodos. Curiosamente o único que não tem goteiras seria o que talvez ninguém se importasse se tivesse, o banheiro. Mas nós estávamos acostumados, pois não era o primeiro verão que passávamos assim. Diferente dos recém-chegados moradores do barraco ao lado que se desesperavam ao levantar os móveis para protegê-los das implacáveis águas.

"A luz voltou! Graças a Deus!" em uníssono os moradores do assentamento do Arariba vibraram.

E volta rádio, e volta a rede social, e volta a televisão para todos saberem dos acontecimentos e abafarem o tilintar das goteiras.

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