TRADUZIR ESTE BLOG

Radio Mixtura - www.radiomixtura.net.br

 ~

quinta-feira, 26 de março de 2026

Ajatoba

Como a poesia chegou na sua vida?

A poesia chegou na minha vida através da aula de português, com professor Acácio, na escola Alberto Conte que foi onde fiz o ensino médio. Ele chegou recitando Racionais. Eu sempre me interessei muito em ler, era algo que meu irmão especificamente, sempre me incentivou muito a fazer , então eu já tinha cruzado a poesia antes. Mas ela chegou mesmo na minha vida a partir desse dia. Foi no 1° ano do ensino médio. 

Como você era antes da poesia?

Antes da poesia eu era alguém que amava admirar quem fazia qualquer tipo ou forma de arte. Sempre foi algo que gostei muito em ouvir/ver. Transitava bastante em atividades culturais aonde dava. Música, desenho, pintura, artesanato, teatro.

Quem é você depois da poesia?

A poesia foi onde eu encontrei um lugar íntimo, onde tudo era válido, falar abertamente (ou não tanto assim) sobre qualquer assunto que se instalasse nos meus pensamentos, no meu corpo ou no meu coração. Foi também o "universo" que me fez conhecer muitas pessoas que hoje, não me vejo sem. Amigas e amigos também apaixonados pela palavra e pela escrita e que, todos convivem muito bem e ensinam muito sobre o que é estar e ser coletivo. A poesia me molda, me educa constantemente. Depois da poesia eu me tornei alguém que se permite pensar e refletir melhor sobre as situações e modos de viver e de conviver.

Os Que Nunca Foram Achados

Hoje faz parte de um dos dias da primavera.

Mas olha só, vou te contar um segredo

Se é que já não sabe

As marcas de gotas escuras no chão, dessa vez não são dos pés de amora

Mas talvez tenha a ver com os meninos

Sim, os meninos que pegavam as amoras

Os meninos não estavam lá também, afinal, não tinha amoras naquele dia

Fiquei me perguntando onde estavam 

O que faziam

Já não era hora da escola e não estavam em suas casas

As casas eram assustadoras demais para estarem antes que suas mães brigassem para que voltassem por estar tarde demais

Mas isso, quando tinham mães 

Ou quando as mães podiam estar em suas casas a noite pra notarem que os meninos, ainda não estavam lá 

Parecia que também não estavam nas ruas

Assim, como dizem… Brincando, correndo…

Só se estivessem brincando talvez de pique-esconde

Na quebrada é bom, tem muito lugar escondido pra se esconder

Dá certo, se nem o Estado achou, é lá que devem estar

Mas ainda não sei

Acho que talvez não estejam brincando

Eu sei, porquê, aos 16 eu também já não brincava mais dessas coisas

Mas talvez, pode ser que esqueceram de sair

É… Talvez, tenham entrado nesses lugares aos 10, aos 9, talvez aos 12 e queriam ser os últimos a serem achados

E daí ficaram lá, se mantiveram por lá 

Porque se saíssem, sabiam que não iam ganhar

O lugar do pique era muito longe e o pegador estava ao lado do pique, guardando caixão

O pegador o tempo todo vigilante 

É, com certeza estão escondidos nos lugares escondidos que nem o Estado achou.

E daí, eles tiveram que entreter o tempo porque ainda, mesmo escondidos, ainda sentem fome, sentem sede, sentem dores, sentem sono, muito sono

E um dia, de tanto sono, dormiram

E acordaram no susto

Porque quem achou não foi o pegador

Foram os homens do estado

Entraram no lugar errado, pegaram os meninos errados

E quem pegou não foi a mão, mas era uma bala

Só que essa não era nenhum pouco doce

É que o Estado descobriu o lugar escondido

Que tanto que pediam pra achar

Que tanto pediam pra olhar

Que tanto pediram pra melhorar

Nesse dia eles acharam

Mas acharam os meninos errados.

Acharam os meninos desconcertados pelo descaso desajustado que eles decidiram esquecer 

Poucos minutos antes, os meninos lembraram porque se esconderam e ficaram sem reação 

É que o pegador, eram os homens do estado

Mas no dia seguinte, a gente sabe quem foi que guardou o caixão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário