viver ainda vai me matar.
viver é uma benesse.
um biscoito da sorte recheio stress.
viver é travessia irregular que se desvia para fora de ser e de lugar
não é causa nem efeito e pra travessia não há jeito.
atravessar é fatal
só há um leito de lama e lodo no final
caí nessa travessia
sequer me perguntaram se eu queria
e de repente me vem poesia
querendo correr uma maratona por dia
tico e teco
tico e teco
tic e tac
tic e tac
tique e toc
tic e tac
‘tic tac o tempo vai passando e a gente aqui sentado no banquinho conversando’
viver ainda vai me matar.
viver é uma benesse.
um biscoito da sorte recheio stress.
viver é travessia irregular que se desvia para fora de ser e de lugar
não é causa nem efeito e pra travessia não há jeito.
atravessar é fatal
só há um leito de lama e lodo no final
caí nessa travessia
sequer me perguntaram se eu queria
e de repente me vem poesia
querendo correr uma maratona por dia
não sei o que me quer a poesia,
essa mulher que me fantasia e me consome
só sei que ela está a me levar e não sei o lugar onde ela se esconde
e se a sinto roçar
quando vou olhar ela já me some
esqueço até meu nome
é minha menina levada, danada,
estou sempre a perguntar sua morada
e ela me diz
muito maleducada:
não te direi
pois devo te lembrar
que és apenas um rapaz
um aprendiz
de mim
não sabes nada
eita poesia danada
(João Xavier)
Como você era antes da poesia?
Eu vivia isolado do mundo
Quando eu era vagabundo
Sem ter um amor
Hoje em dia eu me regenerei
Sou um chefe de família
Da mulher que eu amei
Linda, linda, linda, linda
Linda como um querubim
É formosa, cheirosa vaidosa
A rosa do meu jardim
Se tu fores na Portela
Gente humilde, gente pobre
Que traz o samba nas veias
O samba de gente nobre
Mas ela não sabe
Não sabe compadre, o que perdeu
Um amor sincero e puro
De um escuro igual ao meu
Se ela soubesse
Que o peito padece com a solidão
Não me negava seus beijos
E me dava o seu perdão
Alcides Lopes
Quem é você depois da poesia?
Minha cabeça passeia
passada passareia
me arrisco
caminho em frente a tua casa
castanha
pra ver se chamo o brilho do teus olhos
todas as volta do mundo são pra você
plano contínuo sequência
mais ou menos
saúdo tudo que te é, sagrada
eixo de rotação da minha lira
mar e sal, medo e som
sal e som
quando você gira e pira
eu beiro o piripaque
seu ritmo explode feito um atabaque
meu peito dissoa, destoa, passando mal
fora de tempo te fotografo
fora de foco
um retrato do meu desespero
seus olhos no espelho
pintados fechados rasgados
me falta luz
te sobra brilho, glitter, carnaval
te sobra esplendor
portanto quando você chega, esguia
me falta o ar
o argumento natural
me falta
minha cabeça fica a toa
rouba a brisa come a lombra
meu pensamento é sombra
da sua árvore
maçã
júpiter e saturno é teu signo
você tão gasosa me escapa
mas me sai, tão carma
o meu, romeu
tento manter a missão
mas não posso
Minha cabeça de grua
faz cinema em tua rua
na hora que a lua se afasta
e você chega, quasiquibêba,
reluzente, brilhante e feliz
depois de uma puta noitada
café quente no bule
te espera o sorriso
como quem espera mais nada
um quase pôr do sol chapado
em meu araripe
que terminou mais cedo
mas não deu, não foi
caçando assuntos pelos cafés da rua
você ainda traz um desenho
mais completo da vida no bairro
um jeito meio errado de preferir pão na chapa da padaria da esquina
do que uma fruta no prato
no quarto quentinho
como quem diz que a vida passeia
e passareia
com os desenhos descalços dos teus pés
solas em todas calçadas
e a passarada assovia
e cada vez que tu encara
eles desviam olhar
que de fronte nem eu nem ninguém tem coragem
porque tudo se move ácido
como fosse mole, movediço
e é só o desejo de tornar
qualquer caminhada tediosa
numa tela do dali.
você ainda jovem,
pintando e pintada.
bonita pacaramba
e eu perdido pra variar.
mas ando pelo centro antigo
como quem esgueira
e só por brincadeira,
virado no jiraya e
na madrugada vejo
desenhos grandes
bonitos de vida.
uma briga virada
cheia de machões e sarados
antes do cavaquinho do nelson tocar
o catador de latinhas
com sua vara pescando
na caçamba de recicláveis sustentos
se abraça com o fortão briguento
ambos assim como eu
só querem carinho
é só querência e carentena
o artista que cruza o descuido
e constrói sua obra de protesto
naquilo que destrói do mais desprovido
o propósito
a água bebe a onça
o outro catador que encontra ouro de latinhas jogado no chão quase emocionado querendo juntar tudo sem que ninguém encontre divisão
dois poetas que observam sempre
e filosofam
e o passante que se autoriza pela fala
a ir de frente da tropa da polícia
e oferecer uma flor
pra mostrar pros poetas
como se encerra a guerra
enquanto tudo isso passa
você dorme tranquila,
em casa um sono quentinho
de quem nem liga pro que perde
pois é no sonho que mora o amor
mas mesmo sem bater os relógios
os nossos corpos se batem
e nesse contato de ossos, tato,
os nossos corpos: lava, terra e mar
e como catástrofes naturais
cataclismas
tornamos o dia torto
trancado
da sala pro quarto em vendaval
e antes do dia nascer
nós já estamos grávidos
profundamente grávidos
gravidíssimos de toda gravidade do momento
e é pra vida inteira
e pra mais outra
tudo em dupla
queria me manter inteiro
mas o meu anterior é feito frangalhos
não sei o que me quer a poesia
nem dela o que quero de mim
só sei que seguiremos lutando
até que um de nós encontre o fim
poema:
POEMA DISCURSO DO FIDEL
E DO LULA PRA LER EM PIQUETE
OU MONUMENTO AO ESGOTAMENTO FONÉTICO
quem colocará fogo na neve?
se os poetas estão de greve.
querem um pouco de atenção,
reles migalhas do teu não.
quem falará o que não deve?
se as poetas estão em greve.
querem um pouco de atenção,
reles formigas do teu pão.
quem deixará bigorna leve?
se is poetas estão em greve.
querem um pouco de atenção,
reles farelos do teu chão.
quem tornará o longe breve?
se xs poetas estão em greve
querem um pouco de atenção,
reles fonemas do teu cão.
quem colocará o longe breve?
se os poetas estão de greve.
querem um pouco de atenção,
reles migalhas do teu cão.
quem falará fogo na neve?
se les poetas estão em greve.
querem um pouco de atenção,
reles formigas do teu não.
quem deixará o que não deve?
se los poetas estão em greve.
querem um pouco de atenção,
reles farelos do teu pão.
quem tornará bigorna leve?
se tus poetas estão em greve.
querem um pouco de atenção,
reles fonemas do teu chão.
quem colocará bigorna leve?
se os poetas estão de greve.
querem um pouco de atenção,
reles migalhas do teu chão.
quem falará o longe breve?
se as poetas estão em greve.
querem um pouco de atenção,
reles formigas do teu cão.
quem deixará fogo na neve?
se us poetas estão em greve.
querem um pouco de atenção,
reles farelos do teu não.
quem tornará o que não deve?
se ils poetas estão em greve.
querem um pouco de atenção,
reles fonemas do teu pão.
quem colocará o que não deve?
se lus poetas estão de greve.
querem um pouco do teu pão.
reles migalhas de atenção,
quem falará bigorna leve?
se the poetas estão em greve.
querem um pouco do teu chão.
reles formigas de atenção,
quem deixará o longe breve?
se as poetas estão em greve.
querem um pouco do teu cão.
reles migalhas de atenção,
quem tornará fogo na neve?
se vós poetas estão em greve.
querem um pouco do teu não.
reles formigas de atenção,
quem colocará fogo breve?
se voz poetas estão de greve.
querem um pouco do teu pão.
reles farelos de atenção,
quem falará o que não neve?
se as poetas estão em greve.
querem um pouco do teu chão.
reles fonemas de atenção,
quem deixará bigorna deve?
se us poetas estão em greve.
querem um pouco do teu pão.
reles migalhas de atenção,
quem tornará o longe leve?
se es poetas estão em greve
querem um pouco do teu chão.
reles formigas de atenção,
quem colocará fogo leve?
se is poetas estão de greve.
querem um pouco do teu cão.
reles farelos de atenção,
quem falará o que não breve?
se os poetas estão em greve.
querem um pouco do teu não.
reles fonemas de atenção,
quem deixará bigorna neve?
se las poetas estão em greve.
querem um pouco do teu não.
reles migalhas de atenção,
quem tornará o longe deve?
se uns poetas estão em greve
querem um pouco do teu pão.
reles formigas de atenção,
quem colocará fogo deve?
se as poetas estão de greve.
querem um pouco do teu chão.
reles farelos de atenção,
quem falará o que não leve?
se es poetas estão em greve.
querem um pouco do teu cão.
reles fonemas de atenção,
quem deixará bigorna breve?
se as poetas estão em greve.
querem um pouco do teu cão.
reles farelos de atenção,
quem tornará o longe neve?
se us poetas estão em greve
querem um pouco do teu não.
reles fonemas de atenção,
quem colocará fogo na neve?
se os poetas estão de greve.
querem um pouco de atenção,
reles migalhas do teu pão.
quem falará o que não deve?
se las poetas estão em greve.
querem um pouco de atenção,
reles formigas do teu chão.
quem deixará bigorna leve?
se es poetas estão em greve.
querem um pouco de atenção,
reles farelos do teu cão.
quem tornará o longe breve?
se us poetas estão em greve.
querem um pouco de atenção,
reles fonemas do teu não.
(pão cão chão)


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