sexta-feira, 27 de março de 2026

Daniel Minchoni

Daniel Minchoni é poeta, editor e slammer nascido em São Paulo (SP), onde viveu até os 17 anos. Em 1997, mudou-se para o Nordeste, onde iniciou sua carreira na poesia oral, participando de projetos como a Sociedade dos Poetas Vivos e Afins do RN e Poesia Esporte Clube, e foi um dos fundadores da Editora Jovens Escribas. Em 2006, retornou para a capital paulista e hoje se dedica a novos projetos, como o Sarau do Burro (criado em 2008 e onde é editor do selo Doburro) e o Menor Slam do Mundo (apresentado desde 2012). Foi professor de Poesia expandida, performance e voz na Casa das Rosas entre 2018 e 2022 e é professor formador do Slam Interescolar.

Como a poesia chegou na sua vida?

viver ainda vai me matar.

viver é uma benesse.

um biscoito da sorte recheio stress.

viver é travessia irregular que se desvia para fora de ser e de lugar

não é causa nem efeito e pra travessia não há jeito.

atravessar é fatal

só há um leito de lama e lodo no final

caí nessa travessia

sequer me perguntaram se eu queria

e de repente me vem poesia

querendo correr uma maratona por dia



tico e teco

tico e teco

tic e tac

tic e tac

tique e toc

tic e tac

‘tic tac o tempo vai passando e a gente aqui sentado no banquinho conversando’


viver ainda vai me matar.

viver é uma benesse.

um biscoito da sorte recheio stress.

viver é travessia irregular que se desvia para fora de ser e de lugar

não é causa nem efeito e pra travessia não há jeito.

atravessar é fatal

só há um leito de lama e lodo no final

caí nessa travessia

sequer me perguntaram se eu queria

e de repente me vem poesia

querendo correr uma maratona por dia


não sei o que me quer a poesia,

essa mulher que me fantasia e me consome

só sei que ela está a me levar e não sei o lugar onde ela se esconde

e se a sinto roçar

quando vou olhar ela já me some

esqueço até meu nome

é minha menina levada, danada,

estou sempre a perguntar sua morada

e ela me diz

muito maleducada:

não te direi

pois devo te lembrar

que és apenas um rapaz

um aprendiz

de mim

não sabes nada


eita poesia danada


(João Xavier)



Como você era antes da poesia?


Eu vivia isolado do mundo

Quando eu era vagabundo

Sem ter um amor

Hoje em dia eu me regenerei

Sou um chefe de família

Da mulher que eu amei

Linda, linda, linda, linda

Linda como um querubim

É formosa, cheirosa vaidosa

A rosa do meu jardim

Se tu fores na Portela

Gente humilde, gente pobre

Que traz o samba nas veias

O samba de gente nobre

Mas ela não sabe

Não sabe compadre, o que perdeu

Um amor sincero e puro

De um escuro igual ao meu

Se ela soubesse

Que o peito padece com a solidão

Não me negava seus beijos

E me dava o seu perdão


Alcides Lopes


Quem é você depois da poesia?


Minha cabeça passeia 

passada passareia

me arrisco

caminho em frente a tua casa

castanha

pra ver se chamo o brilho do teus olhos

todas as volta do mundo são pra você

plano contínuo sequência

mais ou menos 

saúdo tudo que te é, sagrada

eixo de rotação da minha lira

mar e sal, medo e som

sal e som

quando você gira e pira

eu beiro o piripaque

seu ritmo explode feito um atabaque

meu peito dissoa, destoa, passando mal

fora de tempo te fotografo

fora de foco

um retrato do meu desespero

seus olhos no espelho

pintados fechados rasgados

me falta luz

te sobra brilho, glitter, carnaval

te sobra esplendor

portanto quando você chega, esguia

me falta o ar

o argumento natural

me falta

minha cabeça fica a toa

rouba a brisa come a lombra

meu pensamento é sombra

da sua árvore

maçã

júpiter e saturno é teu signo

você tão gasosa me escapa 

mas me sai, tão carma

o meu, romeu

tento manter a missão

mas não posso

Minha cabeça de grua

faz cinema em tua rua

na hora que a lua se afasta 

e você chega, quasiquibêba, 

reluzente, brilhante e feliz

depois de uma puta noitada

café quente no bule

te espera o sorriso

como quem espera mais nada

um quase pôr do sol chapado 

em meu araripe

que terminou mais cedo

mas não deu, não foi

caçando assuntos pelos cafés da rua

você ainda traz um desenho 

mais completo da vida no bairro

um jeito meio errado de preferir pão na chapa da padaria da esquina 

do que uma fruta no prato

no quarto quentinho

como quem diz que a vida passeia

e passareia 

com os desenhos descalços dos teus pés

solas em todas calçadas

e a passarada assovia

e cada vez que tu encara

eles desviam olhar

que de fronte nem eu nem ninguém tem coragem

porque tudo se move ácido

como fosse mole, movediço 

e é só o desejo de tornar

qualquer caminhada tediosa

numa tela do dali.

você ainda jovem, 

pintando e pintada.

bonita pacaramba

e eu perdido pra variar.

mas ando pelo centro antigo

como quem esgueira 

e só por brincadeira,

virado no jiraya e

na madrugada vejo 

desenhos grandes

bonitos de vida. 

uma briga virada

cheia de machões e sarados

antes do cavaquinho do nelson tocar

o catador de latinhas 

com sua vara pescando 

na caçamba de recicláveis sustentos

se abraça com o fortão briguento

ambos assim como eu 

só querem carinho

é só querência e carentena

o artista que cruza o descuido

e constrói sua obra de protesto

naquilo que destrói do mais desprovido

o propósito

a água bebe a onça

o outro catador que encontra ouro de latinhas jogado no chão quase emocionado querendo juntar tudo sem que ninguém encontre divisão

dois poetas que observam sempre

e filosofam

e o passante que se autoriza pela fala

a ir de frente da tropa da polícia 

e oferecer uma flor

pra mostrar pros poetas 

como se encerra a guerra

enquanto tudo isso passa

você dorme tranquila,

em casa um sono quentinho

de quem nem liga pro que perde

pois é no sonho que mora o amor

mas mesmo sem bater os relógios

os nossos corpos se batem

e nesse contato de ossos, tato, 

os nossos corpos: lava, terra e mar

e como catástrofes naturais

cataclismas

tornamos o dia torto

trancado

da sala pro quarto em vendaval

e antes do dia nascer

nós já estamos grávidos

profundamente grávidos

gravidíssimos de toda gravidade do momento

e é pra vida inteira

e pra mais outra

tudo em dupla

queria me manter inteiro

mas o meu anterior é feito frangalhos


não sei o que me quer a poesia

nem dela o que quero de mim

só sei que seguiremos lutando

até que um de nós encontre o fim



poema:

POEMA DISCURSO DO FIDEL

E DO LULA PRA LER EM PIQUETE

OU MONUMENTO AO ESGOTAMENTO FONÉTICO


quem colocará fogo na neve?

se os poetas estão de greve.

querem um pouco de atenção,

reles migalhas do teu não.


quem falará o que não deve?

se as poetas estão em greve.

querem um pouco de atenção,

reles formigas do teu pão.


quem deixará bigorna leve?

se is poetas estão em greve.

querem um pouco de atenção,

reles farelos do teu chão.


quem tornará o longe breve?

se xs poetas estão em greve

querem um pouco de atenção,

reles fonemas do teu cão.


quem colocará o longe breve?

se os poetas estão de greve.

querem um pouco de atenção,

reles migalhas do teu cão.


quem falará fogo na neve?

se les poetas estão em greve.

querem um pouco de atenção,

reles formigas do teu não.


quem deixará o que não deve?

se los poetas estão em greve.

querem um pouco de atenção,

reles farelos do teu pão.


quem tornará bigorna leve?

se tus poetas estão em greve.

querem um pouco de atenção,

reles fonemas do teu chão.


quem colocará bigorna leve?

se os poetas estão de greve.

querem um pouco de atenção,

reles migalhas do teu chão.


quem falará o longe breve?

se as poetas estão em greve.

querem um pouco de atenção,

reles formigas do teu cão.


quem deixará fogo na neve?

se us poetas estão em greve.

querem um pouco de atenção,

reles farelos do teu não.


quem tornará o que não deve?

se ils poetas estão em greve.

querem um pouco de atenção,

reles fonemas do teu pão.


quem colocará o que não deve?

se lus poetas estão de greve.

querem um pouco do teu pão.

reles migalhas de atenção,


quem falará bigorna leve?

se the poetas estão em greve.

querem um pouco do teu chão. 

reles formigas de atenção,


quem deixará o longe breve?

se as poetas estão em greve.

querem um pouco do teu cão.

reles migalhas de atenção,


quem tornará fogo na neve?

se vós poetas estão em greve.

querem um pouco do teu não. 

reles formigas de atenção,


quem colocará fogo breve?

se voz poetas estão de greve.

querem um pouco do teu pão.

reles farelos de atenção,


quem falará o que não neve?

se as poetas estão em greve.

querem um pouco do teu chão.

reles fonemas de atenção,


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se us poetas estão em greve.

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se es poetas estão em greve

querem um pouco do teu chão. 

reles formigas de atenção,


quem colocará fogo leve?

se is poetas estão de greve.

querem um pouco do teu cão.

reles farelos de atenção,


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se os poetas estão em greve.

querem um pouco do teu não.

reles fonemas de atenção,


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se las poetas estão em greve.

querem um pouco do teu não.

reles migalhas de atenção,


quem tornará o longe deve?

se uns poetas estão em greve

querem um pouco do teu pão. 

reles formigas de atenção,


quem colocará fogo deve?

se as poetas estão de greve.

querem um pouco do teu chão.

reles farelos de atenção,


quem falará o que não leve?

se es poetas estão em greve.

querem um pouco do teu cão.

reles fonemas de atenção,


quem deixará bigorna breve?

se as poetas estão em greve.

querem um pouco do teu cão.

reles farelos de atenção,


quem tornará o longe neve?

se us poetas estão em greve

querem um pouco do teu não.

reles fonemas de atenção,


quem colocará fogo na neve?

se os poetas estão de greve.

querem um pouco de atenção,

reles migalhas do teu pão.


quem falará o que não deve?

se las poetas estão em greve.

querem um pouco de atenção,

reles formigas do teu chão.


quem deixará bigorna leve?

se es poetas estão em greve.

querem um pouco de atenção,

reles farelos do teu cão.


quem tornará o longe breve?

se us poetas estão em greve.

querem um pouco de atenção,

reles fonemas do teu não.

(pão cão chão)

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